"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."
Blog mantido por Isolda Herculano, jornalista baiana, pernambucana, paraibana e, agora, alagoana.
É do conhecimento geral da Nação que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, está fazendo tratamento quimioterápico após a retirada de um linfoma (tumor cancerígeno nos gânglios linfáticos). Por isso, os noticiários estão afiados em fornecer boletins médicos e esclarecimentos sobre o novo termo que, há poucos dias atrás, não fazia parte do vocabulário do brasileiro.
Além de Dilma – acabo de ler num site de notícias – Glória Perez, autora de Caminho das Índias, folhetim do horário nobre global, também está passando pelo mesmo tratamento. Assim como Rousseff, Perez detectou precocemente o tumor, retirou-o por cirurgia e está em fase de recuperação. Mas o linfoma da autora não interessa à opinião pública e parece tratar apenas de questão para a oncologia.
O da ministra também nem interessaria tanto não fosse o caso de ser um câncer político, desses que acometem prováveis candidatos a importantes cargos em véspera de eleição. Não serei leviana de apontar o linfoma da Dilma como estratégia para 2010 – como já ouvi, maldosamente, dizerem por aí. Mas não posso negar que a exploração do assunto, nos e pelos meios de comunicação, só cheira fins eleitoreiros, já que fortalece mais a ideia de que Lula ainda é um rei sem herdeiros.
É que, pelo andar da carruagem, sobra ao imaginário popular o conceito que apenas o presidente tem condições de suceder a si mesmo, e sem ceder aos apelos de um terceiro mandato. Uma possível unificação das eleições em 2012 – assunto que havia amornado – começa a esquentar novamente na Câmara dos Deputados e é provável que, montado numa economia de R$ 10 bilhões, Luiz Inácio segure o comando do país por mais dois anos após a implementação da afamada reforma política. Uma pechincha, não?!
Enquanto a evolução da enfermidade de Glória Perez desembocaria no simples descompasso do final feliz entre Maya e Bahuan na trama das oito, o linfoma da Dilma pode reger, e está regendo, o futuro político do Brasil. Claro que é de bom tom todos fazerem cara de preocupados com a saúde e o bem estar da ministra – que logo estará restabelecida, suponho. Mas ai que contra o tumor maligno da política falsa moralista não há quimioterapia.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 1:49 PM
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Quinta-feira, Maio 07, 2009 :::
Irmãos, mas nem tanto
Sem querer bancar o irmão ciumento, tampouco diminuir o sofrimento real que a população do Sul enfrentou na ocasião das enchentes de Santa Catarina, em novembro do ano passado, sinto-me a vontade para um desabafo pontual.
Nos últimos dias o Brasil vem acompanhando, via mídia nacional, os estragos que as chuvas têm causado ao Norte e ao Nordeste. Na pauta do noticiário, tudo o que há de mais comovente: mortes por soterramento ou afogamento, desabamento de barreiras, desmoronamento de casas, enfim. Para minha triste constatação, vejo que profetizaram os que disseram lá atrás, em relação à Santa Catarina: ‘se a catástrofe acontecesse nas regiões pobres do país, a mobilização seria diferente’.
Entre o final de 2008 e o início de 2009, várias campanhas em prol da população catarinense surgiram no Brasil inteiro, encabeçadas por anônimos e famosos. Inclua-se o Nordeste na estimativa, já que Recife, capital pernambucana, fez mutirão para arrecadar mantimentos de toda espécie. Digo Recife para dar apenas um exemplo do ato de solidariedade que considero louvável. As ofertas foram tantas que chegou o momento em que as autoridades competentes pediram para que os doadores concentrassem doações em água potável – a maior das carências. Lembram disso? Eu lembro.
Pois bem, a população nordestina e nortista está morrendo, ou perdendo o pouco que juntou durante uma vida inteira, ou vendo seus entes queridos irem embora, ou todas essas coisas juntas. As vítimas da chuva por aqui, na verdade, já eram vitimadas pela escassez de tudo (inclusive de chuva), pela pobreza, fome, falta de educação e de qualquer política pública convincente etc. etc. etc. Talvez por isso ninguém faça o esforço de notar grandes diferenças: é ‘apenas’ o pobre que está ainda mais pobre; é o que ‘só’ sobrevivia e agora não vive mais.
É claro que os dois casos têm proporções diferentes, mas ambos figuram uma mesma situação de tragédia. Também é trágico não noticiar nem ver noticiado que ‘doações chegam do todo o país para ajudar desabrigados e desalojados do Norte e do Nordeste’. Afinal, somos ou não somos todos irmãos?
Imagem aérea mostra regiões atingidas pelas cheias
do rio Acaraú, em Sobral, no Ceará. Foto: Wellington Macedo/Divulgação.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 4:33 PM
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Sábado, Maio 02, 2009 :::
O fim do mundo (parte 2009)
Acho que depois do ano dois mil, a maioria das pessoas já se convenceu de que o mundo não vai acabar. Pelo menos, não instantaneamente. É claro que os filmes norte-americanos ainda nos amedrontam com meteoros que podem atingir a Terra causando uma destruição em massa. Mas eles também adestram a confiar na NASA e na soberania estadunidense acima de qualquer fator natural. E artificial.
A minoria, que existe e não podemos negar, insiste que a versão high tech do dilúvio ainda está por vir. E com todo o pavor causado pela gripe suína, imaginei aqui comigo: seria possível o extermínio da vida humana com uma pandemia causada pelo vírus? Matematicamente, deve haver probabilidade para isso, porém, todos os países, em menor ou maior escala, estão defendendo como podem as suas fronteiras e enclausurando – para monitoramento – ao soar do primeiro espirro. É claro que exagero na dose, para dar movimento ao artigo.
A tal da gripe suína – que agora se chama Gripe A H1N1 – ganhou o nome popular porque o vírus dela é semelhante a um que atinge os porcos, embora nada justifique o sacrifício dos animaizinhos. Com a difusão exagerada (?) das notícias sobre o novo pesticida humano, não tive como deixar de comparar homens a porcos (sem querer ofender os porcos). Quem leu o excelente livro A revolução dos bichos, de George Orwell, certamente lembra como, através da mesquinhez da raça, o homem passou a se igualar ao animal quadrúpede e, durante um banquete ao fim da narrativa, os dois se confundiam, em gestos e atitudes.
Certamente Orwell não queria dar uma de Nostradamus, adivinhando o futuro, apenas pensou além e viu como as relações humanas, guiadas pelo puro interesse, tendiam para a situação em que entre homens e porcos todos são porcos. É justamente o que, por metáfora, está acontecendo agora. Minha torcida é para que, dessa vez, o homem perceba que já está enlameado demais e deve retomar suas características de homem. E que seja adiado, mais uma vez, o fim do mundo.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 2:03 PM
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