Mala Jornalística



"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."


Blog mantido por Isolda Herculano,
jornalista baiana, pernambucana,
paraibana e, agora, alagoana.



isoldaherculano@hotmail.com


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... a notícia como bagagem!


Mala Jornalística


De volta ao começo Malas e Bagagens Passaporte

Segunda-feira, Março 30, 2009 :::



A poesia sobrevive

Quem eu seria se não fosse eu? Essa é a espécie da pergunta que já permeou meu vasto campo de dúvidas, sempre trazendo respostas diferentes. Freud não explica, ninguém explicaria. Mas é gostoso traçar as mais variadas projeções, às vezes, apenas para testar o meu (o seu!) senso de verdade.

Dentro dos padrões socialmente estabelecidos, sou uma pessoa boa: nunca matei, roubei, trafiquei etc. Porém – ah, porém – a bondade faria parte da minha conduta se acaso eu nascesse em outro lar, tivesse pais desequilibrados, conhecesse a fome, o desprezo e a covardia bem de perto? Julgar é muito fácil (que me perdoem os juízes de Direito); fácil porque a maioria das pessoas nos parece condenável, embora ser julgado por qualquer uma delas é ofensa sem tamanho. Não há quem tolere um banco de réus.

De repente, dia desses, chego numa cela de delegacia que acabou de ser violada por treze presos propensos à fuga e vejo o seguinte verso na parede: feliz ano novo; vamos roubar, matar e fazer tudo de novo. E no ambiente não é apenas a parede que fala: falam os objetos, o chão, os números, as grades, o espaço, o lugar, tudo – nada parece calado. Há alguns meses atrás, conversei com um defensor público, Dr. Manoel Correia (cara jovem, descolado), e concordamos em vários pontos, entre eles: não há como ressociabilizar o preso do sistema carcerário brasileiro, de um modo geral. Menos ainda o do alagoano. Afinal, como ressociabilizar alguém que não foi socializado?

Olhando a foto da parede, chego à conclusão de que a palavra sobrevive a qualquer ambiente – sem se importar com o quanto hostil ele é: dita, escrita, pronunciada baixinho para que ninguém escute. Mas e a ética do ser, a bondade humana, o sentimento de culpa e a vontade de melhorar sobreviveriam acima das circunstâncias? Até onde nós podemos ir se formos, desde muito pequenos, ‘ensinados’ a agir de acordo com nossos instintos mais primitivos? Fica a dúvida para posterior reflexão.


Foto: xadrez 1 da Delegacia de Roubos e Furtos
de Veículos e Cargas de Maceió.

Ambiente revirado pela revista dos agentes.



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:18 PM ... Comente!

Quarta-feira, Março 25, 2009 :::



O bom maconheiro

Quando se discute a legalização da maconha no Brasil, muitas pessoas acreditam que irá surgir um quadro simples, onde o temido traficante se tornará, de um dia para o outro, um comerciante de respeito, respaldado pelas leis vigentes. Há também o discurso de que países de primeiro mundo, como a Holanda, já descriminalizaram o uso da droga - e quem é que não tem um amigo maconheiro que sonha ir a Amsterdam?. A “novidade” é que o conto de fadas não deveria ser contado assim.

É claro que o raciocínio vai parecer (e é) careta, mas não posso acreditar que liberar a maconha, para o consumo, trará benefícios ao país. Meu primeiro argumento é que os traficantes não deixarão de ser traficantes porque um item, entre todos os “produtos” que oferecem, foi legalizado. Eles continuarão a vender a cocaína, o crack, o ecstasy e as demais drogas químicas que surgem a cada dia. O que eu quero dizer é: caso a defendida “liberação” da maconha não seja a tentativa de dar fim ao tráfico, a discussão se torna unilateral e pobre, já que parte do desejo de criar uma lei em privilégio de uma minoria e não da sociedade em geral.

Segundo ponto: o mito de Amsterdam. Comparar a legalização do consumo da maconha entre dois lugares cultural, econômica, política e socialmente diferentes já é um argumento fraco. E depois, a Holanda não é a “terra sem lei” que muitos imaginam; é salutar lembrar que lá a maconha não é ‘liberada’ e sim ‘tolerada’. Ou seja, existem lugares específicos para se comprar drogas naturais sem aditivos químicos (cogumelos e versões herbais de ecstasy servem de mais exemplo). A venda também é controlada por usuário nos coffee shops, estabelecimentos licenciados para a aquisição e consumo de pequenas quantidades de maconha. Isso equivale a dizer que sair fumando pelas ruas pode ser considerado uma afronta pelos guardas locais, portanto, é ato não-indicado, assim como portar “doses” excessivas de droga.

É bem verdade que todo malefício da maconha tem sido suavizado pelo surgimento de drogas tidas como mais nocivas ao organismo humano. Representantes da classe dos artistas, jornalistas, políticos etc. já se manifestam abertamente em favor da descriminalização e a patologia, que é a dependência química, vai cedendo lugar ao modismo ideológico do “legalize já”. Mas eu não posso deixar de imaginar que por trás de tanta vontade engajada exista alguém que não queira arriscar a vida subindo um morro (ou descendo uma grota), não deseja escancarar seu endereço em serviços delivery (o disk-droga) e prefere, enfim, pensar que futuro próspero é poder descer da altura de seu apartamento, comprar uma quantidade qualquer de maconha e pagar com cartão de crédito.

E não há quem me tire da cabeça que é esse o bom maconheiro que o Brasil não precisa.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 12:22 PM ... Comente!

Sábado, Março 21, 2009 :::



A juventude desacreditada

Com a propriedade de quem tem a juventude como argumento, garanto – mais do que admito: não é fácil ser jovem no Brasil. E quando digo isso não me refiro aos conflitos da idade, ao mercado de trabalho cada vez mais sufocado e nem as tolices características da geração dos vinte e poucos anos. Falo da dificuldade de compor a juventude, partindo do ponto de vista de quem olha para ela com descrédito e desdém. Explico melhor, claro.

Alguns dos textos que publiquei – nos meus blogs ou em outros meios – despertaram comentários elogiosos assim: “Nossa!como você escreve bem. Quando olhei a sua idade, quase não acreditei” (sic). E similares. Eu poderia levar as opiniões para o lado da lisonja apenas, mas sempre me chamou mais atenção o fato do descrédito na boa escrita, na crítica e no embasamento intelectual dos jovens de hoje. É como se reunir tais características fosse um feito para pessoas como eu, com 24 anos e uma vida pela frente.

Cabe ressaltar: dizer que os jovens têm uma vida pela frente não exclui a verdade de que eles já tiveram algo atrás. Mas as experiências da juventude parecem só ser contabilizadas quando se envelhece – o que chega a soar com ilogismo. Eu sou apenas um caso de jovem que saiu de casa cedo, está longe das pessoas que mais ama, recebe rasteiras diárias da vida etc. No caminho, tantas vezes tortuoso que tracei e traço, conheci muita gente que tem uma visão diferenciada da existência e manifesta isso através da escrita, da música, da atitude – que seja! E uma agradável constatação: quase todos são jovens. Alguns mais jovens do que eu e mais talentosos no que se propõem a fazer.

É uma pena que os meios de comunicação, as editoras, as gravadoras e os canais de propagação da imagem, em geral, dêem evidência a tantos exemplos sinuosos de jovens astros e anônimos: que se drogam, não sabem falar o português "correto", escrevem pior do que falam, não respeitam ideologias e sentimentos alheios, enfim. Por conta disso, jovens com boas intenções e invenções ainda são considerados a exceção. E a juventude – ah, a juventude – não deixou a (velha e empoeirada) cara de transviada.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:46 PM ... Comente!

Segunda-feira, Março 16, 2009 :::



Reflexos e reflexões

Depois de cobrir um domingo (15) de eleição suplementar num municipiozinho do interior alagoano, voltei a uma velha questão já levantada por mim mesma – e por tantos outros: o que é democracia?

É claro que o dicionário ajuda, mesmo quando a realidade das coisas não coincide com a das palavras. Então, vamos aos saberes da língua, analisando a origem pelo grego: demos (povo) e kratia, de krátos (governo, poder, autoridade), como bem se aprende nas aulas de história. Numa tradução literal, democracia seria algo como “o povo no poder” – slogan já usado e abusado nas campanhas eleitorais e, sobretudo, nas eleitoreiras.

A definição é poeticamente aceitável, principalmente quando, em tribuna, políticos discursam que os eleitores são livres para escolher seus representantes. Mas a linha entre obediência e liberdade é tão tênue, não acham? É como se dissessem ao povo: a liberdade que vocês têm lhes obriga a votar. Contraditório, como quase tudo o que sai da mente e da boca dos homens.

A cidadezinha a que me referi no começo do texto é Porto Real do Colégio, distante 183 km de Maceió, e o diminutivo utilizado não tem nada de pejorativo, apenas faz referência aos cerca de 17 mil moradores do município. Por lá, ouvi muitos votantes dizerem em alto e bom som que votam apenas porque se sentem obrigados, vi eleitores apegados a promessas feitas no apagar das luzes de campanhas (cargos, benefícios próprios etc.) e pessoas defendendo nomes ao invés de ideologias. Também vi denúncias de compra de votos e distribuição de cestas-básicas; briga de mulheres, em plena avenida principal, por motivo político torpe. E nada – digo, nada mesmo – me pareceu democrático.

Qualquer pessoa que questiona o voto pode ser considerada leviana no Brasil, que tem um passado histórico inteiro para confirmar que ele é uma conquista das maiores. E nem faz tanto tempo assim. O que eu gostaria, de verdade, era de estar viva para ver a democracia real estabelecida quando os eleitores perceberem que existe uma opção viável entre o candidato que “não faz nada” e o que “rouba, mas faz”. Só que a morte chega, para todos, tão depressa...


Foto: policiais averiguam denúncia de compra de votos.
E se deseja saber o porquê das eleições suplementares
em Alagoas, clique aqui



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:51 PM ... Comente!

Quarta-feira, Março 11, 2009 :::

Quem tem olho é rei?

Deu na Gazetaweb: em Caraíbas, Agreste alagoano, cabrito nasceu com um olho apenas. Mas existem coisas mais estranhas acontecendo neste estado. Uma delas - mesmo sem o ineditismo da novidade - tem chamado, enfadonhamente, a atenção diária da população: a situação política.

E eu poderia falar dos governos estadual, municipal, escancarar baús fechados de representantes do povo de Alagoas em Brasília, enfim. Porém, prefiro ficar por aqui mesmo, atada ao que acontece no centro da capital, Maceió, a vista de todas e todos os que passam rumo ao comércio - para mais um dia de trabalho, compras ou pagamento de contas, como manda a cartilha do bom cidadão.

Mas assim como é fácil ser um bom alagoano, é difícil "engolir" maus alagoanos, sobretudo no poder. As pessoas nas ruas, mesmo as iletradas, entendem o que está acontecendo na Assembleia Legislativa - desde antes da Operação Taturana ter dado nome aos bois que desviaram quase R$ 300 milhões dos cofres públicos. Deputados afastados, volta e meia, anunciam um 'voltar por cima da carne seca', e mais, com todo o respaldo que a lei pode lhes garantir. Suplentes, encorajados pelo próprio temor, também garantem que ficam e - se não há nossa senhora que ajude - apelam para outra lei, que anula a primeira. Afinal, a exemplo do país, em Alagoas também existem as leis que "pegam" e as que não pegam - e entre elas, aquelas que jamais pegam as pessoas certas.

O que eu acho que deveria acontecer - e não acontece - é um movimento organizado vindo do povo, sem siglas para impor ideologias ou nomes registrados em cartórios. Gostaria de ver que pessoas sem envolvimento partidário estão colocando a cara na rua para pedir explicações claras, como a honestidade. Mas o povo se minimiza e acredita que só adquire poder de quatro em quatro anos. Tem dois olhos para ver e uma facilidade imensa de aceitar, mesmo aquilo o que discorda absolutamente.


Foto: Catedral de Maceió através da Assembleia Legislativa.
O crédito é do fotógrafo Marcelo Albuquerque e do seu olhar
diferenciado sobre as coisas. Ele tem trabalhos belíssimos que
podem ser vistos aqui.



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 7:44 PM ... Comente!

Sexta-feira, Março 06, 2009 :::



Entre a cruz e a espada

Para falar a verdade, não gosto de religiões. Aliás, nunca gostei, mas me permiti o tempo do experimento para ter uma opinião consciente formada. Quando criança, fui adepta do catolicismo; na adolescência freqüentei igrejas protestantes e centros espíritas e não encontrei respostas para as minhas perguntas, basicamente, humanas.

Pois bem, ao me deparar com o mais recente embate igreja versus medicina, não pude deixar minha reflexão de lado. Trata-se do caso de uma criança pernambucana de nove anos que, estuprada, engravidou de gêmeos e foi submetida, na última quarta-feira (4), a um aborto. No Brasil, a prática é ilegal, porém casos em que a vítima sofreu violência sexual e corre risco de vida podem ser avaliados pela justiça e permitidos ou não. No caso da menina, a permissão foi concedida. Como se não bastasse a já trágica situação vivenciada por ela, seus familiares e todos os envolvidos no caso, o bispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe da garota e os médicos que participaram do processo. A criança foi poupada porque, segundo dom José, a igreja “é benévola, sobretudo, com os menores”.

Atenho-me a avaliar as contradições da decisão do bispo, nada mais. Ora, excomungar um grupo de pessoas que, obedecendo a lei dos homens, violou a lei divina é uma justificativa meio incompleta. Diga-se de passagem, o conhecido autor do estupro – padrasto da garota – não foi excomungado. Ou seja, o criminoso pode entrar em qualquer missa, receber a benção de um padre, tomar e beber o corpo e o sangue de Cristo (como eles dizem). Agora, que me perdoem os desígnios do Deus da igreja católica, se cada pessoa que fosse de encontro aos mandamentos cristãos tivesse de ser expulsa da religião, o catolicismo perderia muito mais fiéis do que perde diariamente. Mas existem interesses inclusos em toda conduta religiosa – assunto que vou deixar para outra ocasião.

O que mais me causa repulsa quando penso em religiosidade – vejam bem, religiosidade não é espiritualidade – é o fato dos questionamentos não existirem, dando lugar aos terríveis dogmas, uma espécie de conceito inquestionável, desses que dizem você é assim porque Deus quis e ponto final. Nem vírgula nem ponto-e-vírgula. Já eu, imperfeita que sou, simplesmente não acredito naquilo que não posso questionar.

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Acreditar... em que?

::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 10:51 AM ... Comente!



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