"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."
Blog mantido por Isolda Herculano, jornalista baiana, pernambucana, paraibana e, agora, alagoana.
Na última terça-feira (17), em razão do calendário de recepção aos FERAS 2009, ministrei uma Oficina de Weblog para alunos novatos dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Com o gás característico de recém-chegados ao mundo acadêmico, os jovens – que, em média, tinham 17 anos – ouviram atentos todas as explicações que eu, no topo dos meus 24, tinha a lhes dar. Após uma breve explanação sobre o contexto histórico em que os blogs surgiram, a importância deles para a comunicação contemporânea e blablablá, os alunos puderam, ao final da Oficina, produzir sua própria página virtual, relacionada à 9ª Semana dos Estudantes de Comunicação, Secom 2009.
O resultado da “aula” pode ser acessado através do endereço: www.bastidoresdasecom.blogspot.com. Usamos um modelo de blog mais ligado às novas tendências: contendo três colunas. Mas já há layouts moderníssimos com quatro, cinco e até seis separações. Quem tiver interesse de mudar a cara do seu, indico o site BTemplates. Todos os modelos são compatíveis com o Blogspot.
É claro que eu não posso deixar de desejar boa sorte para todos os participantes da Oficina. Que eles tenham entrado na faculdade com o intuito de remover a poeira do jornalismo velho e caduco, adequando novas técnicas de informação e comunicação ao novo mundo que já temos e não é mais como antigamente. E isso não quer dizer acabar com jornais impressos, rádios, revistas, canais abertos, gibis e afins – entendam-me bem, por favor. Falo de um “fazer” diferente, e sei que muita gente compreende.
Ah, e o mais importante: que, chegando ao mercado de trabalho, eles encontrem pessoas dispostas a praticar menos o velho jornalismo em dias tão atuais. Que Pierre Lévy os proteja! Amém.
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Meu muito obrigada ao Renato Medeiros, meu monitor na Oficina, que bloga aqui, e ao jornalista João Paulo, uma presença querida, que bloga aqui e aqui também. Além da organização do evento, claro, que bloga aqui. (Risos)
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 7:34 PM
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Domingo, Fevereiro 15, 2009 :::
Zurique não é Recife
Diplomacia à parte, o Brasil nunca teve uma boa reputação frente aos países europeus e do primeiro mundo. É certo que nossos milionários alimentam contas gordas em paraísos fiscais suíços e universalizar a Amazônia é a ambição de muitos gringos visionários, mas, salvo exceções, o país ainda carrega o estigma de exportador de prostitutas e trabalhadores ilegais para as nações desenvolvidas.
Ao saber do caso da pernambucana Paula Oliveira, supostamente agredida por neonazistas em Zurique (nordeste da Suíça), foi instintivo lembrar de Jean Charles de Menezes, brasileiro morto como terrorista por policiais numa estação de metrô em Londres. Naquela época, 2005, as versões apresentadas pela defesa londrina punham Jean – vítima incontestável – na posição de responsável pelo crime através, inclusive, de declarações forjadas, e desmentidas posteriormente. Como se vê, somos o que pode ser chamado lado fraco quando a corda arrebenta.
É claro que eu nem poderia sonhar com o desdobramento do “caso Paula”, mas era de se esperar uma dura reação suíça, principalmente pela gravidade dos fatos. Morar em um país distante – mas receptivo, até então – deve ter provocado na brasileira a confortável sensação de estar quase em casa. Afinal, Paula trabalhava no país, vivia em Zurique com o noivo suíço, teria filhos com aquela nacionalidade etc. O primeiro sinal de que era uma estranha no ninho deve ter sido a reação dos investigadores que, de pronto, desconfiaram da versão dela após lhe prestarem socorro. Os suíços nunca passaram a impressão de considerar Paula a vítima, por mais aparência de vítima que tivesse.
Com as investigações em andamento, a Suíça tem “munição” para pôr o Brasil, internacionalmente, em maus lençóis. Atestar a não-gravidez da brasileira no momento do “ataque” talvez seja a mais importante delas. A defesa de Paula, que até agora tem se concentrado em relatos de um pai desolado pela situação, não tem como provar a afirmação da jovem, que se dizia grávida de gêmeas até sofrer um aborto em decorrência das agressões. Os cortes simétricos no corpo da brasileira – com a sigla do partido que tem uma facção contra imigrantes – poderiam ter sido feitos por ela mesma, avaliam peritos estrangeiros e brasileiros. A imprensa suíça, abertamente, duvida da versão de Paula e já há uma pressão por lá para que ela seja punida.
No Brasil, fora o depoimento de parentes e amigos convictos da verdade de Paula, as opiniões refletem um único sentimento: a dúvida. E duvidar é bom, porque, desde Platão, somos enganados por nossos sentidos e pelo imediatismo de nossas decisões. Embora eu (e você) já possa sentir, nas ruas de uma cidade tão nordestina quanto Recife, que brasileiros e brasileiras estão mais convencidos da versão suíça, não custa apelar para a prudência até que este caso se resolva. Com um pedido de desculpa diplomaticamente aceito ou com mais um arranhão em nossa arranhada reputação mundial.
____________ Mas os gringos virão para o carnaval!
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 6:08 PM
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Desde que o assunto eutanásia entrou no campo das polêmicas noticiadas, tenho acompanhado timidamente os casos com tristeza e dúvida. E, perdoem minha ignorância, mas sempre acreditei que a “morte assistida” fosse um processo menos cruel do que tem se apresentado no caso recente da italiana Eluana Englaro – uma mulher de 38 anos que, há 17, vive em estado de coma irreversível.
Para fugir do campo de divergência ciência-religião, já desgastado pelo tempo, não questiono a família, que se diz porta-voz de uma manifestação de Eluana, antes do acidente que a colocou em estado vegetativo; tampouco a Igreja Católica e todos os seus motivos em defesa da existência acima de tudo. Questiono a maneira como a paciente é exposta à morte, porque não tenho como não considerá-la uma brutalidade. E que se entenda: brutal não é a decisão de interromper a subvida de Eluana, mas o modo como ela está sendo interrompida.
Quando não temos experiência parecida em nossas vidas, costumamos ligar casos como o de Eluana aos noticiados anteriormente ou até mesmo à ficção, através de filmes que vimos (como, por exemplo, Menina de Ouro). Deste modo, eutanásia, para mim, sempre foi um processo em que um paciente era desligado de aparelhos elétricos que mantinham sua vida ou, num extremo, quando recebia uma injeção letal. A “morte assistida” passava a impressão de ser assim: rápida e o menos dolorida possível.
Agora vejo os médicos divulgarem que a comida e a hidratação de Eluana foram suspensas e que seu “processo de morte” deve durar de 12 a 14 dias. Ou seja: sem alimento e água no organismo, a paciente morrerá de fome e sede. Médico do caso, o neurologista milanês Carlo Alberto Defanti, já declarou que, como o estado físico de Eluana é ótimo (o acidente a abalou apenas neurologicamente), ela pode resistir mais do que a média.
Estudando sobre o assunto, encontrei duas subdivisões para a eutanásia. A primeira delas é a “ativa”, que se caracteriza por um acordo entre médico (e/ou família) e paciente para provocar, de alguma maneira, a morte deste último. Constitucionalmente, a modalidade é proibida na Itália. Já na eutanásia “passiva” a morte não é diretamente provocada, mas também não é evitada.
Em defesa da manutenção da vida da paciente, o premiê italiano Silvio Berlusconi está redigindo um projeto de lei para que ela volte a receber atenção médica, suspendendo o processo de eutanásia. Inerte às decisões polêmicas, Eluana está a três dias sem comer e beber enquanto aguarda, passivamente, a hora de sua morte.
____________ Aujdem-me, amigos, a responder a questão inicial deste post:
o que é a vida? E uma boa vida para todos, sempre.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 2:07 PM
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Sábado, Fevereiro 07, 2009 :::
Presidenta do Brasil?
Quando, no início do segundo mandato do presidente Lula, ouvi da boca dos críticos que ele era um rei sem herdeiros, confesso, quis crer na máxima. E não por simpatia – até me pareceu uma constatação antipática – mas considerei improvável que alguém com uma história pessoal e política semelhante à dele pudesse alçar vôos tão altos quanto ele alçou. Com o Partido dos Trabalhadores em maus lençóis ficaria mais difícil ainda.
Difícil também porque, entre mil outras razões posteriores, quem criticava a sucessão presidencial ainda não levava em consideração o fato de Lula ter a opção de deixar uma herdeira. Falavam em herdeiros forçando a tônica masculina da palavra – sublinhada pelo imaginário dos militantes barbados do PT de antigamente. Mas além de homens elegantes, de barba feita e até implantes capilares, o partido possui hoje mulheres ao nível de uma disputa nacional – devem ter julgado Lula e equipe antes de divulgar que Dilma Rousseff (PT) é sim, a mais “qualificada” para governar o país.
A ex-petista Heloísa Helena (PSOL), vereadora em Maceió, quando candidata à cadeira presidencial nas eleições de 2006, declarou que o Brasil já deveria ter tido uma presidenta. E usando seu vocabulário característico, considerava uma “aberração” o fato de mulher alguma ter se candidatado antes dela. Concordo com Heloísa, mas, pela experiência das ruas, não acho que o povo brasileiro esteja preparado para eleger uma chefa de estado. O machismo é, sem dúvidas, o vilão da história. As pessoas (mulheres, inclusive) ainda se surpreendem ao ver uma mulher dirigindo um ônibus coletivo, pilotando um avião e cumprindo tantas outras funções, tradicionalmente, masculinas. Para cargos políticos, é vergonhoso mas, o mandato de muitas delas está fatalmente arraigado às gestões masculinas anteriores de seus pais, maridos, partidários inseparáveis etc.
A ministra da Casa Civil tem um sobrenome pomposo, mas um nome simples: Dilma, que deve ser explorado durante a campanha como forma de lhe aproximar do povo. Ajudará o fato do Programa de Aceleração do Crescimento ter inaugurações concentradas no crucial 2010 (para quem não sabe, Dilma foi denominada “mãe do PAC”). O ano que vem também contará com o lançamento do filme Lula, o filho do Brasil, previsto para o primeiro semestre, o que, certamente, fortificará o lulismo, e seus aliados/seguidores, de norte a sul do país.
Dilma tem muitos pontos a favor de sua candidatura e, como não poderia ser diferente, muitos contra: o já citado machismo do eleitorado, o fato de ser uma “desconhecida” até então, a falta de simpatia (atenuada por uma recente plástica facial), os adversários políticos, entre outros. Apostar na derrota da petista pode ser precipitado mas, intuitivamente, não acredito que ela ocupará a honrosa posição de primeira presidenta do Brasil. Mas é claro que eleições não se fazem com apostas, menos ainda intuições.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 4:14 PM
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