"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."
Blog mantido por Isolda Herculano, jornalista baiana, pernambucana, paraibana e, agora, alagoana.
Quem saiu de casa para assistir ao show que o irreverente Tom Zé trouxe para Maceió, na última quinta-feira (27), não se arrependeu. "Estudando a Bossa - Nordeste Plaza", título do recente cd do baiano - que faz mais do que compor, cantar, orquestrar, brincar, falar de coisa séria e surpreender - é um verdadeiro convite ao raciocínio. Não aquele refinado e trancafiado nas academias de pseudogênios que se convencionou chamar universidades. Ele versa sobre os pensamentos das pessoas de carne, osso e história, suas lógicas plurais que têm o poder de expor a realidade em situações contraditórias. Tom Zé é tudo isso e mais um pouco.
E para que fique guardado além da memória de quem foi ao Teatro Gustavo Leite, já com a certeza de que não havia chances de perder a viagem, deixo aqui um vídeo, feito por mim mesma de forma amadora e sem o menor propósito comercial (risos). Se você não esteve lá também pode ficar com um pedacinho dele. A música em questão é Solvador Bahia de Caymmi , de autoria do Tom Zé. Meu respeito imenso e total à banda do Zé, um show à parte (sem partir o show ao meio) e a Tião Marcolino e seu filho Douglas, que abriram com brilho a festa.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 6:18 PM
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Segunda-feira, Novembro 24, 2008 :::
Bobos e bobagens
Lula se comporta feito tolo frente à crise econômica mundial, é o que podemos concluir através da comentada frase de Fernando Henrique Cardoso (PSDB): “não diga bobagem, presidente”. A pérola, dita no último sábado (22) durante um encontro tucano, foi acompanhada por muitas outras declarações ex-presidenciais que combinaram as mais variadas figuras de linguagem: da metáfora à ironia.
Acontece que, queiramos ou não, a palavra bobagem, definida como “gracejo de um bobo” numa análise lexical, acabou aproximando a figura do presidente Lula e de um conhecido personagem medieval, o Bobo da Corte. Traçando relações entre os dois é possível encontrar uma semelhança interessante: ambos são apontados como responsáveis por fazer a nobreza sorrir. Guardando-se as devidas proporções contextuais, claro.
A oposição ao governo petista costuma fazer chacota das peripécias do presidente bobalhão, dizendo que “nunca na história deste país os ‘nobres’ sorriram tanto”. Seria até uma piada engraçada se não estivesse gasta pelo tempo e pelas próprias gestões anteriores. Além do mais se torna um perigo para os oposicionistas estarem tentando ser engraçadinhos num momento delicado como esse, já que é prudente lembrar que os nobres insatisfeitos com as anedotas contadas, geralmente, sentenciavam os Bobos da Corte com um sonoro e mortífero “cortem a cabeça!”. Em defesa de Luiz Inácio – e das cabeças que ainda não precisam rolar – José Serra, partidário de FHC, preferiu apaziguar: “Lula está preocupado com a crise sim” e fim de papo.
Apesar da popularidade que essa pendenga presidencial conseguiu em poucas horas, a população nada tem a ganhar com ela. Já se comenta na internet, e nos botecos de esquina, que entre as besteiras que Lula diz e as que Fernando Henrique fez quando presidente da República, preferível é ficar com o bobo da vez. A vantagem de Lula parece que é ter conseguido colocar o sorriso na boca de nobres e pobres. O problema é que os pobres ainda não têm dentes para mostrar quando sorriem.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 12:41 AM
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Sábado, Novembro 22, 2008 :::
Dia de branco
É fato que o Dia da Consciência Negra passou em branco para muitas pessoas no Brasil inteiro – especialmente as daquelas cidades onde não se decretou feriado. Muitas, repito, não todas. Claro que existe a parcela embasada da sociedade, mas é uma pena que a história de um povo, de uma raça, ainda seja comemorada de forma reduzida, mesmo nos lugares em que deveria ser evidenciada.
Em Alagoas, por exemplo, “terra” de Zumbi dos Palmares, o sol convidativo levou muitos à praia e, entre esses, houve quem sequer soubesse o motivo da folga em plena quinta-feira. A dúvida, que foi transmitida por uma emissora local, é vergonhosa sim, mas naquele instante nem pareceu que fosse. Embora condenável, ela pode ser justificada pela própria didática empregada nas escolas desde os níveis fundamentais, quando se apregoa que a distância do comportamento europeu equivale ao “crime” de não ser civilizado, apesar de negros terem trazido ao Brasil a diversidade dos saberes e uma civilização inteira na bagagem.
Acompanhando a cobertura do Dia pelo restante do país, li em vários sites que a 5ª Marcha da Consciência Negra reuniu, em São Paulo, pouco mais de mil e quinhentas pessoas. A Parada do Orgulho Gay deste ano agregou, na mesma cidade, mais de três milhões, de acordo com dados da organização do evento. E apesar dos movimentos terem fins diversos, sobra a impressão de que a população negra poderia (e pode) ter mais representatividade em manifestações assim. Sejam elas amparadas pela militância organizada ou pela boa intenção de soldados que guerreiam praticamente sozinhos.
No 20 de novembro que passou há pouco, ficou faltando a consciência de muitos a respeito do que é viver numa sociedade mista onde todos têm o direito de lutar por um tratamento igual. Voltando para casa, tarde da noite, ouvi um amigo dizer ao outro: “vamo embora, rapaz, que amanhã é dia de branco”. A expressão preconceituosa, por aqui, equivale a algo como dia útil, mesmo arraigada a um linguajar tão arcaico quanto inútil.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 10:05 AM
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Sexta-feira, Novembro 14, 2008 :::
Entre a anorexia e a fome
Padrão de moda é o tipo da coisa que a maioria de nós não sabe de onde vem, que benefício traz, porém, de uma maneira ou de outra, acaba seguindo – mesmo em manifestações simplórias, como o formato da gola de uma camisa. Mas é quando tais padrões saem dos acessórios em si e começam a exigir do material humano que se configura uma das mais cruéis formas de ditadura moderna: a da beleza.
Há pouco tempo atrás no Brasil, muitos expectadores nunca tinham ouvido falar em "anorexia nervosa" na grande mídia. Até que em 2006, uma modelo brasileira morreu em decorrência de complicações da doença que, grosso modo, é um distúrbio alimentar resultante da preocupação exagerada com o peso corporal. Passado o episódio, o Senado recebeu um projeto que visava impedir o emprego de modelos muito magras em peças publicitárias e desfiles de moda no país. Já aprovada, a matéria agora aguarda uma decisão terminativa.
Num mundo em que a magreza está diretamente vinculada aos padrões da moda – pouco importa a natureza corpórea do indivíduo – é fundamental discutir o assunto de forma legal, para que a anorexia não seja socialmente aceita. O projeto, de autoria do senador Gerson Camata (PMDB-ES), prevê, aos possíveis responsáveis pelo delito, multas que vão de R$ 1 mil a R$ 5 milhões – valor que pode ser pra lá de salgado para quem não costuma exagerar no tempero. A iminência da aprovação absoluta tem amedrontado modelos e o mercado fashion de uma maneira geral, mas essa, definitivamente, não é preocupação minha – uma démodé convicta.
Ao contrário da anorexia, a fome é velha conhecida do povo brasileiro. Aqui no Nordeste – aliada à seca e a outras condições degradantes – ela costuma causar danos irreparáveis, mesmo quando “combatida” através dos mais variados métodos paliativos: do sopão da esquina ao Bolsa Família. A mazela antiqüíssima mata, como não poderia deixar de ser, mas antes é capaz de impulsionar a marginalidade, o vício e, sobretudo, a descrença na vida. Como se pode perceber, a magreza nada estética de quem não tem o que comer já quebrou todas as espécies de leis ligadas à dignidade da pessoa humana. Mas essa multa, quem paga?
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:32 PM
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Sábado, Novembro 08, 2008 :::
A eterna companhia
“Sorria, você está sendo filmado”, proclamam mensagens aparentemente simpáticas nos mais diversos estabelecimentos urbanos brasileiros – da joalheria finíssima ao boteco da esquina. É claro que as câmeras despertam um sentimento de segurança ilusório, pois inexiste a garantia de que elas possam fazer alguma coisa por nós. Já com muito menos tecnologia (e uma máscara, que seja!) bandidos conseguem seguir carreira a reboque do sigilo de imagens pouco precisas.
Por outro lado, os chamados cidadãos, esses que trabalham de cara limpa, estão expostos a todo e qualquer tipo de flagra. Num elevador vazio, por exemplo, não há privacidade. E olha que se pode precisar dela para dar aquela conferida rápida no visual, tirar uma sujeirinha do dente, dialogar consigo mesmo em voz alta etc. Enquanto fazemos compras, as câmeras também nos seguem: pelas prateleiras do supermercado em busca do melhor preço, nas lojas de conveniência e nas vitrines, antes mesmo de entrarmos.
Nos bancos, então, nem se fala. As lentes atentas fitam nossa chegada, saída e, principalmente, o momento em que a porta eletrônica nos acusa de andar com a chave da própria casa dentro da bolsa. Tais situações criam o neurótico social. Um sujeito comum, como você e eu, que antes de usar o banheiro do shopping costuma dar uma olhadinha para cima e se certificar de que não há câmeras por ali também. Pelo menos não ainda.
Sei não. É nessas horas que aparece a saudade de morar numa cidade miúda, lá nos Cafundós do Judas, como se diz na minha terra. Beber cajuína gelada com um pão doce escolhido a dedo e dar uma batidinha no ombro do senhor meio antipático do balcão, dizendo: “seu Zé, pendura aí na conta”. Depois ir embora sorrindo, porque aquele instante ficará apenas no registro das nossas duas, arcaicas ou simplesmente tradicionais, memórias.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 12:00 AM
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Segunda-feira, Novembro 03, 2008 :::
E se... Obama fosse brasileiro
Estive pensando aqui comigo: se acaso Barack Hussein Obama tivesse nascido no Brasil, sua possível condição de negro à frente da presidência da República poderia ser amplamente contestada. Primeiro porque o garoto Obama, filho de mãe branca, teria a opção de se autodenominar entre as subdivisões raciais brasileiras: mulato, pardo, mestiço etc. Explico melhor, para não parecer racista.
Um dos grandes defeitos do povo brasileiro é o medo da própria negritude. E não que seja infundada a razão para o tanto temor: ser negro no nosso país é enfrentar o preconceito a uma distância bem mais curta do que julgamos que ela possa chegar. Já escutei (no ônibus, pra variar) um menino negro dizer “eu sou o mais branco lá de casa”, como se aquilo lhe rendesse um status inalcançável pelos irmãos de sangue e raça. As variações “negão” e “neguinho”, usualmente, também aludem à intensidade da cor da pele – para que se perpetue a diferença entre ser mais e menos negro.
Nos Estados Unidos não há esse tipo de diferenciação: negros são negros, jamais mulatos (palavra derivada de “mula”, inclusive). É claro que o preconceito por lá também existe, e explícito quando bairros inteiros são reservados à raça negra e aos latino-americanos, para dar dois exemplos bem comuns. Já no Brasil, a ascensão social é capaz de embranquecer a descendência negra de qualquer um; alguns negros se casam com brancas (geralmente louras) para dar início ao processo de clareamento da própria família; e além disso tudo, o Censo 2004, mostrou uma realidade de 93 milhões de brasileiros se considerando brancos, enquanto apenas 11 milhões se diziam negros. Uma ilusão de pernas curtíssimas.
Como se pode perceber, um Obama nascido no Brasil teria todas as chances de ser descaracterizado da raça negra sob a égide do cidadão pardo ou coisa que o valha. A não ser que precisasse entrar na universidade usando o discutível sistema de cotas. Mas aí já é outra história.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:28 PM
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