
"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."
Blog mantido por Isolda Herculano, jornalista baiana, pernambucana, paraibana e, agora, alagoana.
 isoldaherculano@hotmail.com
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Sábado, Outubro 25, 2008 :::
Deus castiga?
Com a descoberta de que o pai da adolescente Eloá, assassinada pelo ex-namorado em Santo André (SP), está envolvido em uma série de assassinatos no Estado de Alagoas, as pessoas começaram a questionar o fim trágico da garota. Seria a tragédia obra do acaso ou a morte de Eloá é uma penalidade indireta pelas tantas outras mortes que seu pai, Everaldo Pereira, está envolvido?
No Nordeste é comum a crença de que as tragédias humanas acontecem por “castigo de Deus” – e isso vai de um simples tropeço no meio-fio da calçada até as formas mais cruéis de violência. Em Maceió, por exemplo, não se escuta outra coisa: muitas pessoas daqui acreditam sim, que a adolescente foi castigada nos rigores da lei divina, já que a justiça dos homens não conseguiu aplicar suas penas – visto que o acusado se mantém foragido. E mais, o comentário é de que as sete vidas salvas pela morte de Eloá – através da doação de seus órgãos – correspondem às subtraídas pelo pai dela, acusado de ser integrante de uma gangue de extermínio.
Nos ônibus coletivos podemos ouvir as mais variadas teses. Dia desses presenciei duas senhoras conversando sobre o caso. Uma delas dizia:
- Ah mulher, não pode ser castigo não. Lá na Bíblia tem uma passagem que diz que nenhum filho pagará pelos pecados do pai.
E a outra, prontamente, rebateu:
- Mas minha flor, também está na Bíblia que Deus lembrará dos seus pecados até a quarta geração.
A conversa, então, acabou nesta grande incógnita.
Investir num Deus terrorista, disposto a fazer justiça com as próprias mãos, é uma constante no mundo moderno. Esse Deus contemporâneo, deixou seu primogênito morrer na cruz para redimir a humanidade do pecado, mas resolveu voltar, agora, exigindo que paguemos a conta. E se já tivermos vendido nossa alma ao Diabo, não tem importância, poderemos pagar com a vida de um filho, neto e até de um bisnetinho desavisado.
Tomara que a ideologia do “Deus castiga” não chegue ainda mais longe do que já chegou. Para que Ele não se transforme num sanguinário sem medidas. E para que os bandidos de todo o calibre não aprendam a dizer, em sua própria defesa, que só puxaram o gatilho e quem matou foi Deus.
Deuteronômio 24:16: Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado.
Números 14:18 : O SENHOR é longânimo, e grande em misericórdia, que perdoa a iniqüidade e a transgressão, que o culpado não tem por inocente, e visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos até à terceira e quarta geração.
Fonte: BilbiaOnline.com.br
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 6:57 PM
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Sexta-feira, Outubro 17, 2008 :::
Jornalismo ou novelismo: o poder da mídia em transformar verdade em ficção
Quem acompanhou a história do exaustivo seqüestro que acabou na noite desta sexta-feira, 17, em Santo André (SP) vai entender a minha colocação inicial. É claro que muitos julgamentos foram feitos e outros hão de vir ainda adiante, mas, como quem justifica o título deste blog, vou me ater ao lado jornalístico dos fatos.
A mídia mais uma vez entrou em cena com o intuito de novelizar, criar drama em cima de uma situação já, forçosamente, dramática. E talvez isso não traga incômodo aos expectadores, porque o brasileiro é muito apegado ao formato das telenovelas: mocinhos, bandidos, uma história de amor impossível, enfim. Esses aspectos foram evidenciados o tempo inteiro pelas emissoras e pelos sites (para a compreensão de quem está fora de São Paulo, como eu) em meio a uma guerra de audiência egoísta e desumana. Jornalistas entraram em contato direto com o seqüestrador e a vítima, ao vivo, em seus programas, para inflar o egocentrismo característico da profissão.
A importância do furo (de reportagem) costuma desconsiderar o fato de estar atrapalhando a conduta da polícia, a recepção das famílias envolvidas, o psicológico do criminoso – geralmente um curtíssimo estopim de bomba. Essa ganância, que nós jornalistas aprendemos a ter, funciona quando conferimos pontos de ibope e exemplares esgotados nas bancas de jornal. Mas pode também desaguar num mar de precipitações. Ato falho cometido por vários meios, a reboque da notícia de capa da Folha Online que deu Eloá, a ex-namorada do seqüestrador, como morta às 19h11min. Pouco depois a notícia foi retirada do ar e trocada por outra que culpava às assessorias pela confusão. No jornalismo também é praxe a corda arrebentar do lado do mais fraco para que retratações e até ressurreições possam existir.
Mas todas as novelas acabam um dia e a vida, que não garante as regalias da ficção, nem sempre ruma para o final feliz. A margem que a imprensa deu, fez com que todo brasileiro se sentisse um especialista em potencial – nessas horas nada parece mais prazeroso do que um previsível pitaco: a polícia errou, a imprensa errou, erraram os pais, o mundo já estava errado... E depois, basta William e Fátima darem seu costumeiro “boa noite” para que, no Brasil inteiro, telespectadores imbuídos no vício pelo novelismo, troquem o semblante para assistir a mais um capítulo da novela das oito, pois somente o amanhã trará cenas dos próximos capítulos.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:36 PM
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Segunda-feira, Outubro 13, 2008 :::
O dia da criança que não tem infância
Ontem, enquanto rodava pela orla marítima de Maceió a procura de uma boa foto que ilustrasse minha matéria sobre o Dia das Crianças para o jornal de hoje, fui surpreendida por uma senhora velha e ranzinza chamada “realidade”. É claro que encontrar crianças trabalhando nos sinais de uma cidade grande não é nenhuma novidade; elas estão lá todos os dias. O que me admira, e admirou ali, é a aceitação humana diante de cenas como aquela, facilmente incorporadas à paisagem urbana.
Muitos de nós já têm o hábito de andar com uma moedinha no porta-luva do carro para situações como essa, mas a iniciativa de ajudar ainda é para poucos. A moedinha dada no sinal é, tantas vezes, medo que a criança – que ofereceu um doce ou exibiu seus dotes de malabarista – arranhe nosso carro, quebre o vidro e até nos fira fisicamente. Ou uma espécie de mea culpa que nos dá a impressão de estarmos fazendo a nossa parte. Pensar que aquela moedinha pode estar pagando o vício da criança, fazendo com que ela desacredite ainda mais em valores humanos etc, é penoso demais. O sinal abre e a vida continua.
Depois de viver essa crônica urbana, voltei ao meu objetivo inicial e fiz as tais fotografias de crianças sorrindo, brincando, e dando razão aos que reservaram um dia inteiro só para elas. O comércio também comemorava as vendas de última hora, os shoppings abarrotados de gente, uma festa do capitalismo feliz, enfim. Ai dos ingênuos que ainda pensam da moeda forte capitalista ser o Dólar ou o Euro: mas não são elas que fazem enlouquecer acionistas em todos os cantos? Besteira! Quem manda e desmanda no mundo, e em cada um de nós, é a desigualdade. A felicidade de quem consome está, inseparavelmente, ligada a escassez do infeliz.
Claro que um mundo melhor – desses que sonham os poetas – não vai depender de não darmos mais presentes aos nossos filhos para não alimentar a desigualdade em seus coracõezinhos infantis. Também não podemos pensar que vivemos ainda na ex-União Soviética nem ilhados num socialismo ideológico e falido. Somos o hoje e o adiante. Não poderemos mudar o mundo em um minuto, mas podemos dar de nós mais do que algumas moedinhas.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:51 AM
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Sexta-feira, Outubro 10, 2008 :::
Mulheres no poder ou "homens de saia"?
Sempre que ouço falar nessa conversa mansa de que a política no Brasil pode começar a tomar prumo porque mulheres estão, cada vez mais, conseguindo seu lugar ao sol, desconfio. E por uma causa simples: a desconfiança é boa companheira e muitas vezes nos faz ver o que a maioria aceita de bom grado.
Em Maceió, por exemplo, a Câmara Municipal – que totaliza vinte e um vereadores – elegeu para a gestão 2009-2012 sete mulheres. Matematicamente falando, é um terço da bancada. Agora me pergunto: serão essas mulheres capazes de revolucionar um legislativo que costuma legislar em causa própria ou o sexo permanecerá frágil diante do tão bem armado circo parlamentar?
O que cansamos de ver, mesmo fazendo vista grossa, são mulheres ocupando cátedras que já foram exclusivamente masculinas, mas ainda sob a mão regente de um homem, que, na maioria dos casos é um parente seu – marido, pai, irmão etc. Não é delas que devemos esperar mudanças, pois tantas são feito bonecos na mão de um experiente ventríloquo; peças-chave para um perfeito xeque-mate; imãs de votos das outras mulheres.
Claro que não me refiro aqui a candidatas como Heloísa Helena (PSOL), que nem poderia figurar na fatia dos “homens de saia” já que continua fidelíssima a sua calça jeans e camiseta branca, além do discurso ferrenho. Em Maceió, Heloísa foi eleita vereadora com uma votação histórica: quase trinta mil votos. E apesar dos prós e contras que carrega consigo, a ex-senadora ainda é um dos poucos exemplos de que, diante do machismo dominante, nós mulheres não precisamos ter um comportamento recessivo.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 1:10 AM
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Quarta-feira, Outubro 01, 2008 :::
Quem responde pelo uso da internet criminosa?
Já há algum tempo ouvimos falar em crimes virtuais – esses cometidos na internet – mas o Código Penal Brasileiro ainda carrega o peso de várias leis inalteradas desde 1940, como se vivêssemos na mesma época em que ele foi decretado pelo presidente Getúlio Vargas. De lá para cá a vida mudou drasticamente nos mais variados pontos de vista e, é claro, em se tratando de delitos que já atingem inimagináveis naturezas.
A falta de uma legislação específica faz com que crimes de internet sejam avaliados sobre o prisma da “realidade”. Assim, num exemplo ridículo, trocar arquivos de mp3 ou mesmo disponibilizá-los na web – caso você não tenha os direitos de tal música – figura como violação do direito autoral*. Isso quer dizer que somos todos, ou quase todos, criminosos. Ou não. Já que sabemos: cometer dolos virtuais em casos pouco extremos feito esse tem o respaldo da impunidade no nosso país. Pelo menos eu desconheço alguma dada sentença (meus amigos do Direito poderiam ajudar).
Nesse período eleitoral, como é do meu feitio, visitei os sites de todos os candidatos à prefeitura de Maceió, onde hoje resido, e um deles, o da candidata Solange Jurema (PSDB), conseguiu me irritar gratuitamente. E não me entendam de má fé, já que meu domicílio eleitoral não fica em Maceió nem em Alagoas; sou apenas uma indignada, pronto! Indignada porque a página da candidata se apossou do meu endereço de e-mail, sem autorização prévia, quando o acessei, para me enviar mensagens indesejáveis da sua campanha. Considero a atitude criminosa tanto eleitoralmente quanto para a internet. É claro que já desabilitei o endereço dela (falecomsolange@solange45.can.br) da minha caixa de entrada, mas não poderia deixar de registrar meu repúdio – como muito se fala nessa época – ao procedimento descarado.
Enfim, muitos crimizinhos desses continuarão a ser cometidos internet adentro, quando acessarmos um site qualquer, de aparente inocência ou não. O que fazer? Para o caso das grandes aporrinhações não resolvidas à base de um bom anti-spam**, eu recomendo procurar os doutores da lei. Eles acharão a resposta, ainda que debruçados sobre leis caducas redirecionadas a um novo contexto. E paciência, evidentemente, visto que sentenças assim podem demorar, pois vivemos num país em que a velocidade da luz (através do www) já serve bem as violações, mas ainda não as punições.
* Link para: Rodrigo Guimarães Colares, em seu artigo A troca de arquivos na Internet e o Direito.
** O anti-spam garante que você não receberá mensagens indesejáveis em sua caixa postal.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 10:00 AM
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