Mala Jornalística



"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."


Blog mantido por Isolda Herculano,
jornalista baiana, pernambucana,
paraibana e, agora, alagoana.



isoldaherculano@hotmail.com

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... a notícia como bagagem!


Mala Jornalística


De volta ao começo Malas e Bagagens Passaporte

Domingo, Setembro 21, 2008 :::



A impossível missão de fazer
jornalismo social no Brasil

Na última quinta-feira (18), assistindo ao Brasil Urgente – naquele intervalo de decidir o que preparar para o jantar – vi um dos exemplos claros de como a grande mídia tem o poder de fazer jornalismo social diariamente e não o faz. A pauta do dia era simples: o apresentador, José Luiz Datena, tinha que explorar ao máximo o episódio do espancamento de um ladrão, apanhado no momento exato do roubo. O marginal foi detido, primeiro, pelo dono da casa que tentava furtar e, depois, por populares em apoio à atitude do morador. Dizia a reportagem que o bandido só não morreu por conta da chegada de policiais – uma fina ironia da vida.

A cena, em si, era chocante e mais me surpreendeu a forma como Datena – um entusiasta, além de apresentador – conduzia a narrativa dos acontecimentos. Em dado momento, ele chegou a interromper as exaustivas repetições do vídeo do linchamento do bandido, para propor ao telespectador uma enquete. Poderiam optar pelo sim e pelo não (através de votos telefonados) a exibição de outro espancamento de ladrões, já transmitido anteriormente no mesmo programa. Dispararam as ligações a favor da retransmissão das imagens que Datena intitulou justiça feita com as próprias mãos.

Não continuei a ver o programa, embora reconheça nas atitudes do apresentador muita técnica jornalística para prender a audiência. Datena sabe o que fazer e mais: faz com mestria. É uma pena que faça por si apenas, impulsionado pelo ego inflado nos pontos do Ibope, e, em segundo plano, pela emissora que serve. É como o jornalista tem que trabalhar para viver acima da linha da sobrevivência. O espancamento ocorrido em Belém (PA) e que acontece em tantas outras cidades do país tem raiz, caule e dará frutos na esfera social, mas é banalizada – e pela imprensa – para o campo criminal apenas.

E o que as grandes audiências têm feito pelo jornalismo social no Brasil hoje? Nada, além de uma exploração grandiosa das pessoas e de suas histórias trágicas a encher manchetes nas “páginas” policiais. Como jornalista profissional, aprendi a perder algumas utopias que a juventude me permitiu e já não permite mais, apesar de eu ser jovem ainda. Perco utopias, enfim, como perdem todos os que nem julgam tê-las, mas a tristeza da perda fica – irreparável como uma morte.


Por que você assiste a um telejornal diário?

Por gosto

Para ficar atualizado

Por costume

Outros motivos

Não assisto






::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 5:47 PM ... Comente!

Segunda-feira, Setembro 15, 2008 :::



Socorro! A bolsa caiu

Deu em todos os jornais, crise em bancos dos Estados Unidos derruba bolsas no mundo inteiro. É uma manchete realmente alarmante, mas que não vai provocar o incômodo de uma cócega na população brasileira por um motivo simples: brasileiros não entendem de bolsa de valores – caso ela seja diferente da sacola que alguns usam para guardar seu parco dinheirinho. Some-se a ignorância do povo uma fatia maior ainda da falta de esclarecimento. Resultado: apatia geral.

Isso porque é visível o desinteresse da mídia (a televisada, principalmente) em informar sobre aquilo o que noticia. Todos os telejornais (seguidos agora pelos sites) dão cotações de moedas estrangeiras, divulgam o superávit primário, a dívida externa, interna, o diabo a quatro, sem nunca se dar ao luxo de explicar do que tanto falam. Quando a Fátima Bernardes abrir a boca para dizer que a nesta segunda-feira a Bovespa operou em baixa de não sei quantos por cento, os telespectadores acreditarão – alguns ainda murmurando qualquer coisa, enquanto outros aproveitam para ir ao banheiro.

Por certo os telejornais esperam que a audiência seja algo que não é: uma economista nata. Ou, do outro lado da moeda, querem da audiência apenas audiência – uma hipótese mais lógica e mercantil, como nosso sistema econômico. As pessoas não sabem o que temer quando a Bolsa de Nova Ioque cai, então não temem e as oscilações da economia do país acabam se tornando um tipo de espírito desencarnado que só atormenta quem nele acredita. Sabemos que não é bem assim.

Claro que tentei, por meio do (in)falível Google, saber onde, precisamente, apertará nosso calo brasileiro em relação à crise recente. O G1 não se deu a esse trabalho; destacou índices apenas: “o índice Ibovespa - referência para o mercado brasileiro - fechou em baixa de 7,59% no dia, terminando o pregão aos 48.416 pontos”. Encontrei depois respostas imprecisas, como a da BBCBrasil: “desatar as complexas relações (...) pode levar semanas ou até meses. Neste tempo, o mercado financeiro permanecerá confuso”.

Palavras, enfim. Falam sem dizer, como eu havia adiantado; noticiam sem informar, tecla batida sempre que o assunto me permite. Enquanto isso as bolsas caem e nós temos a não-ligeira impressão de que estaremos eternamente de pé.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 5:58 PM ... Comente!

Sexta-feira, Setembro 12, 2008 :::



Momento TV Fama: ok, ok!

Vocês devem lembrar do Netinho, cantor baiano que se projetou nacionalmente com o refrão: “ô Mila, mil e uma noites de amor com você”. Depois de anos fora da mídia, o artista ensaia um retorno às paradas de sucesso com o auxílio de um artifício muito utilizado pelos profissionais da área: a polêmica. Polemizar assuntos pessoais é uma tática que sempre atinge os fins preestabelecidos no mundo artístico, diferente das outras profissões. Uma boa polêmica para reles mortais – como nós – renderia até uma demissão por justa causa, mas em se tratando de artistas pode resultar em convites para participação em programas de alto nível (tipo Super Pop), contratos publicitários, ensaios “sensuais” etc.

Bem, vamos aos fatos. Em entrevista concedida à revista Quem desta semana, Netinho toca em vários pontos sensíveis, mas a publicação prefere destacar sua declarada bissexualidade, claro – pois as pessoas (ah, as pessoas...) ainda se interessam em saber com quem você dorme e o que você gosta de fazer entre quatro paredes. O cantor assumiu de forma chula uma opção que, anos antes, Renato Russo já tinha assumido em grande estilo: gosta de meninos e meninas. Até aí tudo bem, já abstraí a polêmica de tópicos assim. O que me surpreendeu foi a declaração a seguir: “já usei drogas em rave, sim. A experiência foi maravilhosa. Nessa vida a gente tem que provar de tudo, desde que tenha vontade e ache que não vai passar daquilo (...) Já misturei álcool com ecstasy (...) Meu último porre foi em Sauípe. Sou movido a felicidade”. (sic)

Pelo visto, a felicidade do cantor é movida a combustível inflamável demais – só faltou Netinho dizer que já fumou maconha com Hipoglós e a sensação foi ótima. Na experiência dos seus 42 anos de idade, ele poderia ter usado o espaço que lhe foi concedido para enaltecer a vida em seus bons aspectos – ainda correndo o risco da matéria nem ser publicada. O artista foi infeliz por dar uma entrevista babaca, entregando seus picos de solidão, depressão, vício, tendência suicida, entre outros. Mas terá seus minutos de fama devido a ela sim: não se admire em, zapeando ou não na programação televisiva, encontrá-lo na Sonia Abraão, no Nelson Rubens, no Leão Lobo. Jamais no Entrevista Cultura.

Mas não banquemos os pragmáticos. Eu, por exemplo, não acho que o cantor seja um completo inútil, já que ele se esforçou em mostrar que serve, ao menos, de mau exemplo.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 1:05 PM ... Comente!

Quinta-feira, Setembro 11, 2008 :::



Jornalistas têm medo de blogueiros?

Acabo de ler uma fatia da matéria Igual, mas diferente (Revista Imprensa, setembro de 2008) que discute a qualidade profissional – apuração, conteúdo etc, e não apenas o texto – do jornalista e do blogueiro, em se tratando de produção jornalística, claro. O tema parece novo porque blogs são muito novos, mas se trata nada mais nada menos da velha e incansável discussão: jornalista com ou sem diploma?

Eu defendo o diploma a todo preço porque acredito que já existe muita gente noticiando sem informar por aí e esse número não precisa aumentar. Mas a evolução da internet criou o sujeito blogueiro e apesar do dicionário do seu (e do meu) Microsoft Word não reconhecer a palavra, ela tem uma força que pode se projetar ainda mais em questão de poucos anos. Isso fez com que muitos jornalistas optassem por também blogar. Nada comparável ao trabalho free de quem bloga sem o peso da profissão e as amarras das empresas jornalísticas.

A resposta aos, inicialmente, desacreditados blogueiros tem sido positiva, e não apenas porque a maioria deles é formada por uma juventude antenada que escreve bem ou muito bem, mas pela personalidade imposta nos seus textos. Algo bem diferente do que os jornalistas aprendem como verdade absoluta nos cursos de Comunicação: objetividade a todo preço. Na faculdade, temos que aceitar os textos informativo, interpretativo e opinativo como três modalidades diferentes. Nos blogs e no moderno fazer jornalístico a mistura é permitida – com a prudência que é o limiar da responsabilidade profissional.

Blogueiros decidem sua forma de expressão sem os bulhões do lead (aquelas perguntinhas básicas que iniciam toda matéria formal: quem?quando?onde?como?porque?...); um desejo proibido para muitos jornalistas. E olha que já existem os jornalistas-blogueiros que põem sim, as manguinhas de fora, mas não têm como garantia a liberdade fidedigna da expressão. O Ricardo Noblat, por exemplo, abandonou as formas convencionais de jornalismo para se dedicar "apenas" ao Blog do Noblat – uma das páginas mais respeitadas do gênero, no entanto, indesviavelmente, ligada a O Globo Online. O que faz, vez em quando, a manifestação livre esbarrar na informação tendenciosa e até barata.

Se jornalistas têm medo de blogueiros? Acho que não mais, e por uma causa simples: eles descobriram que também podem blogar e tirar vantagem disso. Acredito que os blogs tenham vindo mostrar aos profissionais da comunicação que a informação é uma peça de vários moldes e não apenas aquele enlatado que pedíamos nos balcões de venda, por comodismo. O público leitor aprova a chamada blogosfera, desde que mantida as qualidades profissionais. Lutar contra essa realidade apadrinhada pela senhora internet seria desatino – já devem pensar até mesmo os jornalistas mais xiitas – e se não podemos vencê-la, juntemos-nos a ela.


Você costuma acessar quantos blogs por semana?

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::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 10:06 AM ... Comente!



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