
"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."
Blog mantido por Isolda Herculano, jornalista baiana, pernambucana, paraibana e, agora, alagoana.
 isoldaherculano@hotmail.com
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Segunda-feira, Junho 30, 2008 :::
O lado molhado da Lei Seca
Famosa desde sua concepção, a lei seca (Nº 11.705/08) vem tomando espaço em todos os veículos de comunicação por um motivo principal: a polêmica. É claro que nós, da imprensa, já fizemos nossa parte no que diz respeito à divulgação da nova conduta para motoristas, embora muitos deles teimem em se fazer de desentendidos quando abordados em blitz para o temido teste do “bafômetro”. A lei é benéfica e ponto final. Mas, não pude deixar indagar com meus botões: e sua execução terá o mesmo brilhantismo da compreensão teórica?
Deu em todos os jornais: em dez dias de "lei seca", Polícia Rodoviária Federal prende 296 motoristas. São estatísticas, enfim, servem para inflar o ego do Governo. Agora pergunto: quantos desses detidos permanecem presos? O que tenho visto, na progressão mesma dos noticiários, é que todos eles pagam fiança e são conduzidos, elegantemente, até suas casas – no aconchego do lar, hão de curar a ressaca – para que os Distritos Policiais não fiquem por muito tempo com cara de botequim.
Há também uma possibilidade que me assusta mais ainda: que a aplicação da lei seca perca para a “arrecadação informal” nas rodovias – afinal, não é segredo que vários motoristas infratores se beneficiam “molhando as mãos” de policiais dispostos a inibir uma punição mais severa. Temo que essa tome o caminho de muitas outras leis e caia na rotina do “jeitinho brasileiro”, manobra que é orgulho para muitos, apesar de não passar de outra vergonha nacional.
Por vivermos num país tão corrupto, em todas as esferas do pensamento e da atitude, acho que meu senso crítico virou um maníaco farejador de brechas. Boas notícias aguçam minha desconfiança; soluções imediatas mechem no íntimo da minha descrença, ainda assim não posso dizer que sou pessimista. Sou brasileira, não dessas que acredita que Deus é meu conterrâneo, mas daquelas que precisa ver muito nitidamente para crer. E, por enquanto, o ambiente tem tanta fumaça que nem avistei a cor do fogo.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:06 PM
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Segunda-feira, Junho 16, 2008 :::
O Haiti é nosso Mundo Tupiniquim Ao acompanhar notícias de catástrofes naturais e guerras civis em países “distantes” é normal, nós brasileiros, estufarmos o peito cheios de um tipo qualquer de orgulho que parece dizer (e muitas vezes diz): pelo menos no Brasil isso não existe!
O mal entendedor pode interpretar a frase consignada como um bom sinal, e pensará ele que vivemos num país abundante em belezas tropicais, alegria constante e samba no pé. Claro que todas essas qualidades pertencem ao nosso Mundo Tupiniquim, de forma genuína até, mas temos nossas calamidades artificiais, das quais nos devemos profundamente envergonhar: miséria, violência, corrupção em massa – para não me estender ao peso dos etceteras.
Quando meus conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil lançaram a música Haiti, lá em 1993, eles profetizavam, apesar de muitos considerarem exagerada a atitude de traduzir o Brasil em frases ofensivas como “ninguém é cidadão”, afinal já tínhamos uma nova Constituição para nos reafirmar o direito à cidadania. E somos cidadãos sim; evidente que não no total exercício de nossos deveres nem em pleno gozo de nossos direitos.
Somos cidadãos, repito, mas cidadãos desrespeitados pelos políticos que escolhemos para nos representar, pelo poder militar que nos confunde a ponto de não sabermos da distinção entre polícia e bandido – e na dúvida, tememos ambos. As milícias (poder paralelo da “moda”) torturam repórteres em busca de verdade, porque a verdade virou um grande risco a qual não nos devemos submeter. Estamos reprimidos em nós mesmos e a palavra “repressão” nunca foi causa de boas recordações, muito menos na historicidade brasileira.
Salvo as devidas proporções, pode-se dizer que no Haiti não é diferente. Além disso o país tem uma das mais miseráveis populações e, ao mesmo tempo, é fonte de lucros extraordinários para empresas capitalistas. A história me parece bem familiar, quase coincidente. Em todo caso, quando forem rezar pelo Haiti não se esqueçam de pedir pelo Brasil!
EM NOTA: AS IMAGENS QUE ILUSTRAM O POST SÃO DRAMAS LITERAIS DA REALIDADE BRASILEIRA E HAITIANA. SERIA A SEMELHANÇA MERA COINCIDÊNCIA?
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 4:11 PM
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Sexta-feira, Junho 06, 2008 :::
Transporte urbano coletivo: a desvalorização do idoso Envelhecer no Brasil não é fácil. Some-se aos problemas relativos à própria idade, um sistema de saúde deficitário, um Estatuto do Idoso impunemente desobedecido e – a pior das mazelas – a falta de respeito por parte das gerações posteriores (nós mesmos, os jovens, maioria absoluta dos leitores desse blog). Como enumerar problemas acaba sendo cansativo para um artigo, resolvi escolher uma questão incômoda que deparo cada vez que saio de casa: o transporte coletivo para pessoas da terceira idade.
Incômoda porque é nada confortável atender o pedido de um idoso quando ele quer, simplesmente, pegar um ônibus qualquer e não conta com a compreensão de motoristas que, muitas vezes, ignoram sua solicitação nas paradas. Pior ainda é saber que essa atitude não é esporádica e acontece diariamente nas ruas de Maceió, como em várias outras cidades do Brasil, imagino.
Do lado de dentro do ônibus já ouvi também motoristas e cobradores fazerem piada com a presença de “velhos” nos veículos de transporte coletivo. Nos seus simplórios pontos de vista é perdoável não parar para esse “tipo” de passageiro que, além de não pagar passagem, sobe num ponto e desce no outro – o que lhes deve causar um trabalho penoso. Alguns passageiros agravam a situação ao sentarem nas poltronas reservadas aos idosos e não se intimidarem à presença deles no local, exercitando como podem o equilíbrio para não cair. É claro que há os motoristas responsáveis, os cidadãos gentis (desses que cedem seus lugares quando vêem um idoso de pé) e eu admiro suas atitudes no mesmo grau em que repudio as dos seus oponentes.
Contudo a reação também existe e, por mais tímida que seja, consegue me deixar feliz. Outro dia vi uma senhora anotar o número de um veículo cujo motorista feriu os seus direitos de idosa. Ela não usava óculos porque dizia ter uma “vista” boa. Anotou toda a numeração com a ajuda de alguns presentes e garantiu reclamar da situação: na empresa, no PROCON, onde fosse. Dá-lhe Dona Maria! – pensei comigo – que depois disso tudo saiu dizendo estar velha, mas não morta. E me pareceu muito viva.
EM NOTA: Maceió tem, segundo o IBGE, quase 900 mil habitantes; cerca de 50 mil são idosos.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:52 PM
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