"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."
Blog mantido por Isolda Herculano, jornalista baiana, pernambucana, paraibana e, agora, alagoana.
No meu primeiro ano de faculdade, na disciplina Realidade Sócio-econômica e Política Brasileira, lembro das palavras do professor Geraldo Medeiros que eram quase assim: na vida, vocês devem alçar vôo de águias e não de galinhas – a respeito do curto tempo de duração do vôo dessas aves. Era uma lição de economia, para que fizéssemos opções rijas, mas não pude deixar de fazer um paralelo com o recente episódio do padre Adelir de Carli, “carinhosamente” chamado de Padre Voador por boa parte da imprensa.
Sintetizando ao máximo: com o objetivo de chamar atenção – e, logo depois, arrecadar fundos – para um projeto que desenvolvia (Pastoral Rodoviária), Carli resolveu cruzar um trecho de 300 quilômetros, entre as cidades de Paranaguá (PR) e Dourados (MS), suspenso por mil balões. Original a idéia, convenhamos. A primeira parte do plano, a notoriedade, até foi alcançada, mas as demais, com a licença do trocadilho, se perderam no caminho, pois desde o dia do embarque, domingo (20/04), padre Adelir está desaparecido.
O falatório das ruas é o mais despudorado possível. Tenho ouvido nas padarias, paradas de ônibus (laboratórios de jornalismo a céu aberto) etc, observações ferrenhas ao sacerdote. São comentários piadistas do tipo “Por que esse padre não vai rezar missa ao invés de ficar voando por aí?” ou “Agora é que ele está perto de Deus”, entre outros e outros. Claro que estou sendo delicada com as palavras, mas a crítica popular não é branda em adjetivos.
O padre, que aliás, parece nunca ter sido muito dado às críticas, decidiu pôr seu plano em prática mesmo com a desaprovação da Igreja e dos familiares. Segundo Kauan Felipe, professor da escola de vôo Vento Norte , Alderi já tinha sido expulso por indisciplina e inexperiência. O presidente da Federação Paranaense de Balonismo, Adriano Perini, também teria lhe pedido para desistir da idéia. *
Enfim, todos as características apontavam o tempo inteiro para o vôo de galinha – débil e fulgaz – que estava por vir, mas o padre Adelir se dizia águia. Acontece que águias têm uma visão de longo alcance e, talvez por essa capacidade, vivam muito além dos outros seres da mesma espécie.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:54 PM
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Segunda-feira, Abril 21, 2008 :::
Os leitores do Mala Jornalística
Este blog que vos fala, felizmente, tem uma adudiência rica. São pessoas que eu, Isolda, gosto, admiro, que compartilham comigo interesses jornalísticos, claro, mas como não poderia deixar de ser, outros vários e vários.
Dividir a atenção que eles me dão com os outros leitores é fundamental para pesar nossa bagagem, afinal a vida - assim se espera - é uma viagem longa que dura curtíssimo tempo. Essa é mais uma metáfora da minha conhecida coleção.
E foi nessas andanças e trocas que recebi do meu amigo e jornalista Rostand, o link dessa gafe jornalística cometida no Bom Dia Paraíba - atração matutina transmitida pelas TVs Paraíba e Cabo Branco.
Indesviavelmente é um vídeo para se rir, mas serve também de alerta a quem trabalha com produção de Telejornalismo e sempre ao bom senso do entrevistado, diga-se de passagem.
O carregamento é rápido. Assistam e divirtam-se.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 12:51 PM
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Quarta-feira, Abril 16, 2008 :::
O Nordeste diante dos não-nordestinos
Quando retratada nos veículos de comunicação nacional, a região Nordeste – assim como a Norte – é impressa, na maioria das vezes, de forma caricata. Nordestinos evidenciados em reportagens têm o sotaque carregado (as telenovelas são também ótimos exemplos para o caso); codinomes são utilizados de maneira hostil (cabeça-chata, matuto, paraíba), enfim. Falam do nosso clima sertanejo, como se não existissem as sub-regiões do brejo, agreste, litoral. A cara do Nordeste que vai ao ar é sertão puro, seca, miséria de um povo. E é claro que tudo isso existe, sem necessariamente ser um “privilégio” nordestino.
Achei muito tendencioso o texto suportado pelo G1, portal da globo.com, especialmente o título“Moto (realmente) substituiu jegue no Nordeste” – que apesar da inocência aparente é de natureza jocosa. A respeito da mudança no meio de transporte, ela é real, basta observar as ruas de várias cidades nordestinas, mas não tem como paralelo o jegue e a motocicleta. Os jegues ou jumentos, ferramenta de trabalho de muitos nordestinos, começaram a ser substituídos de forma paulatina há anos atrás pelas bicicletas. Com o crescimento do poder aquisitivo de parte da população e a possibilidade do financiamento, são as bicicletas (e não os animais) que estão sendo trocadas por motocicletas, fato bem frizado pelo comentário do leitor Manoel Carlos Neto.
A matéria, assinada por Fernando Scheller, causa um desentendimento esperado entre leitores do Blog da Redação: alguns consideram seu teor preconceituoso, outros aceitam de forma cabal a opinião do autor, insinuando inclusive que a maioria das motocicletas do Nordeste seriam roubadas no Sudeste/Sul do país. Esse último grupo deve ser formado por opinantes que não conhecem a região, senão pela visão estreita de reportagens maldosas como a em questão.
Liberdade de imprensa, porém, é uma conquista com a qual não se deve defrontar. Mas cessado o debate dos jegues e das motos quero, um dia, ter notícia de que, nas grandes redações do eixo Rio-São Paulo, a evolução chegou a ponto de fazer substituir jumentos por repórteres de verdade.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 6:51 PM
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Terça-feira, Abril 15, 2008 :::
Jornalista Roberto Cabrini está preso por porte de drogas
Espantosa a notícia que acabo de ler ao abrir, rotineiramente, o blog do Noblat há poucos minutos atrás. A informação trazida é de que Roberto Cabrini, recente contratação da TV Record, está detido na 100a. Delegacia de Polícia, em São Paulo, e que com ele foram apreendidos 10 papelotes de cocaína. Noblat divulga também uma nota extra-oficial da emissora que afirma que o jornalista foi preso enquanto entrevistava um traficante.
Em respeito a um colega de profissão com quase 30 anos de carreira não farei julgamentos prematuros. Estarei atenta às novas informações sobre o caso e como já disse o próprio Cabrini,“é necessário ousadia mas com responsabilidade para fazer as melhores reportagens”.
ATUALIZAÇÃO DAS 22:13min Junto com o jornalista Roberto Cabrini foi presa toda a equipe de reportagem e a Record já enviou seus advogados ao distrito policial em que todos se encontram.
ATUALIZAÇÃO DAS 13:08min, Quarta-feira, 16/04 Nota oficial da Record retirada da Folha Ilustrada:
"A direção da Record determinou, logo que teve conhecimento sobre a detenção do repórter Roberto Cabrini, que o departamento jurídico da emissora acompanhe atentamente o caso e preste a assessoria necessária ao jornalista, para que o ocorrido seja esclarecido em breve.
A área de jornalismo da Record tinha o registro interno que o repórter estava desenvolvendo uma reportagem de caráter investigativo. Roberto Cabrini é reconhecido pela cobertura de reportagens especiais e por sua trajetória profissional nas principais tevês brasileiras.
A Record acredita na Polícia e na Justiça do Estado de São Paulo e espera a correta elucidação dos fatos.
São Paulo, 16 de abril de 2008"
ATUALIZAÇÃO DAS 14:52min, Quarta-feira, 16/04 Cabrini foi trasferido nesta manhã para o 13º DP, no bairro Casa Verde (zona norte), informou a assessoria da Polícia Civil. Leia um trecho da carta do jornalista enviada à imprensa em que ele se diz vítima de armação:
"Como jornalista investigativo informo aos colegas que tenho atuado há dois anos no caso PCC. Hoje minha fonte me procurou para entregar fitas sobre as quais há muito tempo tenho conhecimento. As fontes do PCC sempre me informaram que os esclarecimentos sobre o que aconteceu durante os ataques só poderiam ser feitos quando sua revelação não representasse riscos a integridade física de vários detentos. Hoje (ontem) uma fonte marcou um encontro na zona sul de São Paulo para a entrega de três DVDs. Após um contato telefônico, a fonte me levou ao local onde seriam entregues os DVDs, já prometidos há muito tempo. Ao invés de receber as fitas, houve sim uma abordagem policial. Estou sendo vítima de uma armação".
ATUALIZAÇÃO DAS 23:27min, Quinta-feira, 17/04 Roberto Cabrini recebeu esta noite o relaxamento da prisão, sendo descartada pela Justiça a possibilidade do jornalista ser traficante de drogas. Cabrini disse não estar feliz com a situação, mas preferiu não falar de imediato sobre os fatos ocorridos, prometendo dar detalhes depois, com mais calma. (Informações retiradas da Folha ilustrada)
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:13 PM
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Sábado, Abril 05, 2008 :::
A relação da imprensa com o caso Isabella
Desde os primeiros momentos da exposição do assassinato da menina Isabella Nardoni sigo, de forma cautelosa, o desenrolar dos fatos – na companhia de quase todos os brasileiros, imagino. Como expectadora, é claro, não posso deixar de ter inclinações sobre suspeitos, responsáveis, enfim. Inclinações, repito. Suposições que, no fim das contas, não devem servir muito, a não ser como formadoras de uma opinião própria que ainda devo guardar na minha estante de achismos.
Em tudo o que vejo há um ponto de grande incômodo no crime – além dele, em si: o tratamento que vários jornalistas estão dando ao caso. Alguns programas, de TV principalmente, parecem transformar a tragédia numa espécie de folhetim, onde o público atento deve aguardar com ânsia (e quanto mais ânsia, melhor) o desenrolar do próximo capítulo. Ao longo da pseudodramaturgia, é triste ver a criação de vilões, mocinhos, santas consignadas e personagens secundários que têm seu papel enaltecido ou abandonado conforme a temperatura da audiência.
Apesar de todo o apelo popular (e populesco) que o episódio gerou/gera, já vejo a reação das pessoas sofrendo modificações. Há poucas horas atrás, ouvi, numa conversa de ônibus, um sujeito fazer brincadeira com o caso, propondo um bolão com o enigma: quem matou Isabella? E muito disso pode se dever ao fato da maioria delas ter formado seu juízo com o “auxílio” da imprensa – divulgando 99% de esclarecimento de um crime que, por enquanto, não tem culpados.
O brasileiro é passional, não há como negar – lembremos os casos do menino João Hélio e Suzane Richthofen. A maioria das pessoas condena o pai de Isabella, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá. Ontem, quando os dois receberam o benefício do hábeas corpus, muitas delas foram à porta das delegacias protestar, acusar, insultar, clamar por uma justiça que, popularmente, foi feita. Acredito ainda que não só os indícios, mas a veiculação deles na mídia gera essa reação em cadeia.
Vender a notícia é oferecer um serviço de utilidade pública que, como tal, deve ser usado em prol da população, de forma real e limpa. Assassinatos em família, infelizmente, não são raridade no Brasil e alguns deles também ocorrem na invisibilidade das periferias. A dedicação exacerbada aos crimes que envolvem clãs de classe média, como o de Isabella, evidencia uma distinção social explícita que as pessoas – tão distraídas com as entrelinhas – não lêem.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 6:21 PM
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Quinta-feira, Abril 03, 2008 :::
Créu, Mulher Melancia e outras atrocidades
Impressionante a criatividade dos funkeiros do Brasil. Quando pensamos que o fim da picada foi MC Serginho e Lacraia com sua “Egüinha Pocotó”, eis que surge o MC Créu e sua composição que, queiram ou não queiram os críticos, se encontra na crista da onda musical.
Inconformada com a inteligência desses senhores, eu, humildemente, recorri à companhia do “pai dos burros” – que faz mais o meu estilo – para sanar uma pequena grande dúvida. Lá, a primeira definição que o Dicionário Aurélio trouxe a respeito do vocábulo “música” é a seguinte: arte e ciência de combinar os sons de modo agradável ao ouvido. E será que a Dança do Créu obedece a esse critério lexical para ser chamada a torto e a direito de música? Confira você mesmo:
Nem tive que ouvir outra vez para uma resposta óbvia: não. Francamente a composição é um tipo desagradável de ofensa auditiva. O pior de tudo é que a simples desaprovação do nosso ouvido não é capaz de nos livrar da Dança que está em todas as partes. Tocam o Creéu..no ônibus lotado, nos estabelecimentos comerciais em busca de atrair clientes, nas casas de família... é impossível escapar!
Ainda tem a Mulher Melancia, uma espécie de Bond Girl do Créu. Tente acompanhar um site sério de notícias e, ainda assim, não consiga se livrar dela – principalmente agora, que resolveu tirar a pouca roupa que lhe cobria “as vergonhas”:
Cá estou eu a pensar, com toda a ignorância que me é possível, se a perfeição chamada Música Brasileira vai sempre viver de migalhas nas paradas de sucesso enquanto o auge da abertura nas FM’s, nos programas populares de TV, nos sons das ruas é um revezamento que quando sai Banda Calypso entra o MC Créu, entra a Mulher Melancia...
E o que mais surgirá para nos, negativamente, impressionar?
P.s.: Para garantir um tipo de assepsia na página, clique e escute Cazuza que, estivesse vivo, faria 50 anos essa semana. Imagine, ao seu bel prazer, o que enfim são os “segredos de liquidificador” que o poeta diz. Escute-o nem que seja um protesto seu, íntimo, para que ele não continue a morrer mais um pouquinho.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 5:48 PM
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Terça-feira, Abril 01, 2008 :::
Você tem sede de quê?
Desde que propagandas de cigarro foram retiradas da grade de programação de todas as rádios e TV’s, ficou a dúvida: por que o mesmo não ocorre com as bebidas alcoólicas – partindo do pré-suposto que ambos tenham o mesmo status de droga lícita? Que a resposta viria em 2008 nem eu poderia vislumbrar, mas já tramita no Congresso o Projeto de Lei (2733/08) que prevê uma restrição publicitária às bebidas. De acordo com o site Congresso em Foco, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, quer proibir, entre as 6 e as 21h, anúncios de cerveja, vinho, cooler, ice e champanhe.
São vários os estudos que comprovam a influência exercida por esse tipo de propaganda sobre o público jovem, principalmente. Numa dessas pesquisas, realizada com jovens de 15 a 26 anos, a Universidade de Connecticut, em Storrs, contesta o argumento industrial de que somente os adultos prestam atenção às propagandas de álcool e que seus gastos com mídia (cerca de US$ 1,8 bilhão por ano) não tem impacto no consumo dessa faixa etária. Embora a pesquisa divulgue o estipulado gasto em dólar com a propaganda de bebida, é fácil perceber que as campanhas do Brasil são, igualmente, milionárias – haja vista a contratação de artistas de enorme apelo popular e a veiculação delas no horário mais nobre da programação.
A justificativa da indústria do álcool, em si, é contestável, principalmente pelo alto nível de competência das empresas publicitárias que lidam com esse tipo de anúncio. A percepção do público jovem a tudo – evidenciada pela velocidade que se vive na Era da Internet e pela própria evolução dos tempos – também descarta qualquer razão para tais argumentos. Ora, vivemos num mundo abertamente capitalista, onde o argumento para tudo é um apenas: lucro. E, para as empresas de publicidade, a divulgação da bebida alcoólica é um mercado que não se pode perder. Não é alarmante que elas achem um exagero a proibição.
O álcool é, incontestavelmente, uma droga – por mais que bebuns convictos ou bêbados esporádicos defendam seu uso humanitário através do famoso “beber pra esquecer” e de outros bordões que aprendemos ainda na infância. Minha opinião particular é que o Projeto vire Lei e que essa transformação ajude na percepção de que o consumo/vício de bebida alcoólica é forte o suficiente, a ponto de não precisar de um auxílio ideológico.
::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 2:24 PM
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