Mala Jornalística



"Qualquer jornalista tem consigo um emaranhado de idéias que se deve expor, uma meia dúzia de verdades que não foi a público ainda por conta de mil e um empecilhos, dentre eles a falta de uma tribuna popular. E como um compilador – nunca um desapegado – ele vai guardando sua coleção pr’uma ocasião melhor. Acontece que idéias empoeiram, notícias envelhecem, coleções começam a só fazer sentido para o colecionador...
Há de se escancarar o conteúdo aprisionado nas cacholas, nas gavetas, nas anotações, no interior da Mala Jornalística que carrega cada um de nós. E depois sentir como as coisas vão ficando mais leves para a próxima viagem."


Blog mantido por Isolda Herculano,
jornalista baiana, pernambucana,
paraibana e, agora, alagoana.



isoldaherculano@hotmail.com

www.flickr.com
Esse é um módulo do Flickr que mostra fotos e vídeos públicos de isoldaherculano. Faça seu próprio módulo aqui.

Tô de boa… (Bruno Félix)

As crônicas do João

Falou tá falado (João Paulo)

Blog do Eduardo

Arte na artéria (Estevão dos Anjos)

Com a palavra... (Jamylle Bezerra)

A princesa e o Guerreiro (Cibele Tenório)

Música: um sentido de vida (Salomão Miranda)

Aqui, ali e em qualquer lugar (Janine Ribeiro)

Os livros que ja li (Renato Medeiros)

Mundo em movimentos (Sergio Coutinho)

Blog do Mario Toledo

Olhares do avesso (Rafael Belo)

Arte e Medicina (Julio Onofre)

Blog do Marabá

Amálgama



Jornalirismo Blog do Noblat Observatório da Imprensa JC GJOL Jornalismo Online Novas Tecnologias Caros Amigos Blog do Juca 1000 imagens Luis Nassif Online Último Segundo Blog da Redação Cristina Lôbo (Política) Blog da Paraíba G1 Bahia Já São João de Campina Grande Tele História O Cruzeiro Portal Imprensa Porta Curtas Agência Ciênci@lagoas Comunicação de Interesse Público FENAJ Isolda Ação por Maceió SindJornal Gazetaweb Primeira Edição Agência Alagoas Alagoas em Tempo Real Tudo na Hora Alagoas 24h Extra Alagoas Tribuna Independente PC AL Prefeitura de Maceió MP AL IZP Alagoas Negócios Alagoas Agora Melhor Notícia Agência Estado BBC Brasil Rádio Jornal Piauí Domínio Público


... a notícia como bagagem!


Mala Jornalística


De volta ao começo Malas e Bagagens Passaporte

Quarta-feira, Junho 10, 2009 :::

O blog Mala Jornalística fez as malas e mudou de endereço. Conheça a nova casa:

www.malajornalistica.blogspot.com

Acesse para acompanhar essas e outras novidades.



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 4:31 PM ... Comente!

Segunda-feira, Junho 01, 2009 :::



Jornalismo voando em círculos

Ao acordar nesta segunda-feira (1), todos devem ter se deparado com a notícia de que um avião da Air France – que ia do Rio de Janeiro à Paris – com 228 pessoas a bordo, sumiu dos radares durante a madrugada. Pois bem, é provável que iremos testemunhar mais uma grande tragédia da aviação, embora ainda não se tenha confirmação, só especulação, sobre a possível queda da aeronave.

Agora observem como a imprensa se comporta frente notícias assim – principalmente em se tratando de televisão. Desde as primeiras horas do dia acompanho o caso, agora sem tanta assiduidade, em diversas emissoras. Na verdade, não há segurança no que se fala, especula-se sem parar, levam-se boatos a cargo de notícias, toma-se base em ‘achismos’ de apresentadores ou jornalistas em polvorosa pelo furo. Um desastre, além do aéreo!

E olha que não é a primeira vez que ponho em cheque essa ‘mania’ do jornalismo: noticiar e noticiar, sem informar muito. O que está se repetindo neste caso recentíssimo, com informações ‘de última hora’ que já foram dadas desde o começo da manhã. É o acontecimento explorado até onde não há profundidade para tanto.

Em momentos assim eu ainda prefiro a sobriedade dos sites, já que eles dão aos espectadores a possibilidade de ler a informação que querem, escolhendo os links que lhe parecem mais precisos – mesmo insistindo a apelação, que não é um pecado no jornalismo, diga-se de passagem. Melhor do que ter de ficar ouvindo a verborragia jornalística que fala, fala e não diz. E tenho dito!


G1: Acompanhe, caso queira, as últimas notícias sobre o caso.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:58 AM ... Comente!

Quinta-feira, Maio 21, 2009 :::



Discutindo o linfoma da Glória Perez

É do conhecimento geral da Nação que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, está fazendo tratamento quimioterápico após a retirada de um linfoma (tumor cancerígeno nos gânglios linfáticos). Por isso, os noticiários estão afiados em fornecer boletins médicos e esclarecimentos sobre o novo termo que, há poucos dias atrás, não fazia parte do vocabulário do brasileiro.

Além de Dilma – acabo de ler num site de notícias – Glória Perez, autora de Caminho das Índias, folhetim do horário nobre global, está passando por um tratamento semelhante. Assim como Rousseff, Perez detectou precocemente o tumor, retirou-o por cirurgia e está em fase de recuperação. Mas o linfoma da autora não interessa à opinião pública e parece tratar apenas de questão para a Oncologia e para os mais afeitos à novela das oito.

O da ministra também nem interessaria tanto não fosse o caso de ser um câncer político, desses que acometem prováveis candidatos a importantes cargos em véspera de eleição. Não serei leviana de apontar o linfoma da Dilma como estratégia para 2010 – como já ouvi, maldosamente, dizerem por aí. Mas não posso negar que a exploração do assunto, nos e pelos meios de comunicação, só cheira fins eleitoreiros, pois fortalece a ideia de que Lula ainda é um rei sem herdeiros.

É que, pelo andar da carruagem, sobra ao imaginário popular o conceito que apenas o presidente tem condições de suceder a si mesmo, e sem ceder aos apelos de um terceiro mandato. Uma possível unificação das eleições em 2012 – assunto que havia amornado – começa a esquentar novamente na Câmara dos Deputados e é provável que, montado numa economia de R$ 10 bilhões, Luiz Inácio segure o comando do país por mais dois anos após a implementação da afamada reforma política. Uma pechincha, não?!

Enquanto a evolução da enfermidade de Glória Perez desembocaria no simples descompasso do final feliz entre Maya e Bahuan na trama das oito, o linfoma da Dilma pode reger, e está regendo, o futuro político do Brasil. Claro que é de bom tom todos fazerem cara de preocupados com a saúde e o bem estar da ministra – que logo estará restabelecida, suponho. Mas ai que contra o tumor maligno da política falsa moralista não há quimioterapia.

Você acha que o câncer da ministra Dilma Rousseff está sendo usado para fins eleitorais com vistas em 2010?

Sim

Não

Talvez

Não sei




::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 1:49 PM ... Comente!

Quinta-feira, Maio 07, 2009 :::



Irmãos, mas nem tanto


Sem querer bancar o irmão ciumento, tampouco diminuir o sofrimento real que a população do Sul enfrentou na ocasião das enchentes de Santa Catarina, em novembro do ano passado, sinto-me a vontade para um desabafo pontual.

Nos últimos dias o Brasil vem acompanhando, via mídia nacional, os estragos que as chuvas têm causado ao Norte e ao Nordeste. Na pauta do noticiário, tudo o que há de mais comovente: mortes por soterramento ou afogamento, desabamento de barreiras, desmoronamento de casas, enfim. Para minha triste constatação, vejo que profetizaram os que disseram lá atrás, em relação à Santa Catarina: ‘se a catástrofe acontecesse nas regiões pobres do país, a mobilização seria diferente’.

Entre o final de 2008 e o início de 2009, várias campanhas em prol da população catarinense surgiram no Brasil inteiro, encabeçadas por anônimos e famosos. Inclua-se o Nordeste na estimativa, já que Recife, capital pernambucana, fez mutirão para arrecadar mantimentos de toda espécie. Digo Recife para dar apenas um exemplo do ato de solidariedade que considero louvável. As ofertas foram tantas que chegou o momento em que as autoridades competentes pediram para que os doadores concentrassem doações em água potável – a maior das carências. Lembram disso? Eu lembro.

Pois bem, a população nordestina e nortista está morrendo, ou perdendo o pouco que juntou durante uma vida inteira, ou vendo seus entes queridos irem embora, ou todas essas coisas juntas. As vítimas da chuva por aqui, na verdade, já eram vitimadas pela escassez de tudo (inclusive de chuva), pela pobreza, fome, falta de educação e de qualquer política pública convincente etc. etc. etc. Talvez por isso ninguém faça o esforço de notar grandes diferenças: é ‘apenas’ o pobre que está ainda mais pobre; é o que ‘só’ sobrevivia e agora não vive mais.

É claro que os dois casos têm proporções diferentes, mas ambos figuram uma mesma situação de tragédia. Também é trágico não noticiar nem ver noticiado que ‘doações chegam do todo o país para ajudar desabrigados e desalojados do Norte e do Nordeste’. Afinal, somos ou não somos todos irmãos?


Imagem aérea mostra regiões atingidas pelas cheias
do rio Acaraú, em Sobral, no Ceará.

Foto: Wellington Macedo/Divulgação.



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 4:33 PM ... Comente!

Sábado, Maio 02, 2009 :::



O fim do mundo (parte 2009)

Acho que depois do ano dois mil, a maioria das pessoas já se convenceu de que o mundo não vai acabar. Pelo menos, não instantaneamente. É claro que os filmes norte-americanos ainda nos amedrontam com meteoros que podem atingir a Terra causando uma destruição em massa. Mas eles também adestram a confiar na NASA e na soberania estadunidense acima de qualquer fator natural. E artificial.

A minoria, que existe e não podemos negar, insiste que a versão high tech do dilúvio ainda está por vir. E com todo o pavor causado pela gripe suína, imaginei aqui comigo: seria possível o extermínio da vida humana com uma pandemia causada pelo vírus? Matematicamente, deve haver probabilidade para isso, porém, todos os países, em menor ou maior escala, estão defendendo como podem as suas fronteiras e enclausurando – para monitoramento – ao soar do primeiro espirro. É claro que exagero na dose, para dar movimento ao artigo.

A tal da gripe suína – que agora se chama Gripe A H1N1 – ganhou o nome popular porque o vírus dela é semelhante a um que atinge os porcos, embora nada justifique o sacrifício dos animaizinhos. Com a difusão exagerada (?) das notícias sobre o novo pesticida humano, não tive como deixar de comparar homens a porcos (sem querer ofender os porcos). Quem leu o excelente livro A revolução dos bichos, de George Orwell, certamente lembra como, através da mesquinhez da raça, o homem passou a se igualar ao animal quadrúpede e, durante um banquete ao fim da narrativa, os dois se confundiam, em gestos e atitudes.

Certamente Orwell não queria dar uma de Nostradamus, adivinhando o futuro, apenas pensou além e viu como as relações humanas, guiadas pelo puro interesse, tendiam para a situação em que entre homens e porcos todos são porcos. É justamente o que, por metáfora, está acontecendo agora. Minha torcida é para que, dessa vez, o homem perceba que já está enlameado demais e deve retomar suas características de homem. E que seja adiado, mais uma vez, o fim do mundo.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 2:03 PM ... Comente!

Domingo, Abril 19, 2009 :::



O seu futuro é duvidoso?

Bem, acredito que o futuro de todas as pessoas – até daquelas que dizem ter alguma vidência – seja inusitado. Estamos sujeitos, todos os dias, aos mais variados tipos de surpresas, agradáveis ou não. Mas falemos de um futuro não tão distante, desses que virão nos próximos anos (2011, 2012, enfim). É claro que muitos de nós já projetamos a vida até lá: término de um curso pós-graduação, casamento, filhos, carro novo, ascensão profissional, mudança de cidade, estado, país e põe etcetera nisso.

E que tal testar o prazo de validade dos nossos sonhos e projeções? Pois é, é possível fazer isso virtualmente através de um sistema simples presente e um site já divulgado na internet. Retirei a dica do blog da Katiuscia Malafaia e resolvi trazer a brincadeira para os leitores do Mala Jornalística. O processo é simples: após o preenchimento deste formulário aqui, cada pessoa pode mandar um e-mail para si mesmo, escolhendo uma data futura para receber a mensagem. O interessante é dar o intervalo de alguns anos para que a experiência se torne mais surpreendente, ou não.

No começo achei a ideia simples e monstruosa, misteriosa e chata, inocente e aprimorada, mas depois acabei curiosa – ah, a curiosidade humana – pelos resultados. É claro que o futuro pode me trazer o descompasso entre a Isolda de hoje e a de amanhã; pode ser que sonhos fiquem pelo caminho, despedaçados; que maravilhas aconteçam de um dia para a noite. Nunca se sabe, mesmo!

Já estou me programando para mandar o e-mail, talvez faça isso nos próximos dias, como uma brincadeira séria. Caso achem interessante e tenham um tempinho no final de semana, no feriado que se aproxima, façam a experiência também. E não precisa ser projetando futuro não. Uma narrativa de como andam suas vidas hoje já seria suficiente para um comparativo, anos após, sob a linha tênue da mudança para melhor e para pior. Desejo um futuro que exceda as boas expectativas de todos e do nosso mundo, que, aliás, anda bem castigado.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 10:45 AM ... Comente!

Terça-feira, Abril 07, 2009 :::



A preço de banana

A inclusão digital está aí para quem quiser e estiver disposto a pagar por ela. É claro que este alguém pode não saber de todos os benefícios que as novas tecnologias da informação e da comunicação – como se diz, academicamente – têm a lhe oferecer, de forma real e concreta. E vai parecer piegas, mas o caso me preocupa.

O anúncio acima, copiado e colado do Circuito Integrado (Blog de Informática da Folha) é mais um sinal de que o Brasil já está incluído na chamada Era Virtual, em definitivo. E eu acho extraordinário ver crianças, cujos pais nunca tiveram acesso a uma máquina de escrever em casa, desbravando programas a fio, descobrindo com o senso autodidata extraído dos computadores e da internet, trabalhando a própria inteligência, tantas vezes subestimada. Não me agrada, porém, o excesso de acesso indiscriminado.

A foto, tirada numa cidade baiana não identificada (como se a Bahia fosse uma coisa só!), chamou minha atenção para os apelos do virtual em sociedade. Falarei do Orkut, para simplificar, já que o site de relacionamento dispensa apresentação. A tabela enumerada de preços especifica a cobrança da bagatela de RS 0,75 para quem quiser criar um perfil na página. Ou seja: pessoas que sequer dominam o procedimento, facílimo, de criação sentem a necessidade de “ter um Orkut”. É o modismo da inclusão que não inclui – assunto que daria tese de doutorado.

E quem tem um Orkut não poderá ficar sem uma conta de acesso ao MSN – programa de conversação de igual fama. E lá se vão mais R$ 0,50: uma pechincha, caso o felizardo possua o cartão do Bolsa-Família. Enfim, com R$ 1,25 é possível sair de um estabelecimento que vende acesso a tecnologia e a informação com a impressão de estar incluído, ainda quando só se está iludido.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:38 PM ... Comente!

Sábado, Abril 04, 2009 :::



O detalhe entre instruir e destruir

Vivemos no mundo do audiovisual, é fato. E é da ambição humana querer ver, ouvir e – quereremos num futuro bem próximo – sentir através da tela. A novidade é que, até poucos anos atrás, tal tela era a da televisão, que reinava solitária no espaço mais central da sala. Mas hoje se tem tela de tudo o quanto é jeito, para que não possamos querer nos ver apenas na TV: celular, mp4 (5,6,7...), notebook, etc.

Percebam a curva da revolução que estamos presenciando de dentro das nossas próprias casas: a audiência das TVs passa por uma derrocada indesviável. E é claro que virão os apocalípticos dizer que a culpa é dos computadores e da internet, mas eu digo não para a hipótese. Culpada é a programação inútil que vai ao ar diariamente e se repete, exaustiva, em todos os canais. Ou seria mera coincidência a emissora X lançar uma produção diferente na praça que é absolutamente igual a uma que já existiu ou ainda existe na emissora Y? Chacrinha profetizou que nada se cria e, de lá pra cá, tudo continuou a ser copiado.

Mais cedo conversava com um amigo sobre o assunto: estou assistindo menos TV. Mas não por ela ter deixado de ser um meio maravilhoso de se fazer comunicação, e sim porque usa uma fórmula gasta e lenta para a velocidade evolutiva dos tempos. Num exemplo bem prático: tudo o que eu posso assistir hoje à noite no Jornal Nacional li antes no G1, na Folha Online, que seja! As telenovelas, mesmo diante do vício e comodismo do telespectador brasileiro, estão cada vez mais dispensáveis. Os programas que podem acrescentar qualquer valor ao nosso intelecto são jogados no calabouço da programação (tarde da noite ou mesmo na madrugada), comprometendo a disposição para o dia de amanhã. Enfim, quis enumerar pequenos motivos.

Eu poderia falar também da programação da TV paga, mas como ainda estou num país miserável, onde milhares de lares só recebem o sinal da TV Globo, continuarei por aqui mesmo. A curva da revolução a que me referi lá atrás, e já podemos sentir, não se faz presente para vários semelhantes nossos, com capacidade de pensar tanto quanto nós podemos, porém sem oportunidade para isso. E quando nos convencermos de que poder de escolha é mais do que zapear num botão de controle remoto, pode ser que eles ainda estejam sendo induzidos a acreditar que vale a pena ver de novo o que já vimos num passado torto. E a desigualdade de informação será outra responsável pela desigualdade de formação.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 7:44 PM ... Comente!

Segunda-feira, Março 30, 2009 :::



A poesia sobrevive

Quem eu seria se não fosse eu? Essa é a espécie da pergunta que já permeou meu vasto campo de dúvidas, sempre trazendo respostas diferentes. Freud não explica, ninguém explicaria. Mas é gostoso traçar as mais variadas projeções, às vezes, apenas para testar o meu (o seu!) senso de verdade.

Dentro dos padrões socialmente estabelecidos, sou uma pessoa boa: nunca matei, roubei, trafiquei etc. Porém – ah, porém – a bondade faria parte da minha conduta se acaso eu nascesse em outro lar, tivesse pais desequilibrados, conhecesse a fome, o desprezo e a covardia bem de perto? Julgar é muito fácil (que me perdoem os juízes de Direito); fácil porque a maioria das pessoas nos parece condenável, embora ser julgado por qualquer uma delas é ofensa sem tamanho. Não há quem tolere um banco de réus.

De repente, dia desses, chego numa cela de delegacia que acabou de ser violada por treze presos propensos à fuga e vejo o seguinte verso na parede: feliz ano novo; vamos roubar, matar e fazer tudo de novo. E no ambiente não é apenas a parede que fala: falam os objetos, o chão, os números, as grades, o espaço, o lugar, tudo – nada parece calado. Há alguns meses atrás, conversei com um defensor público, Dr. Manoel Correia (cara jovem, descolado), e concordamos em vários pontos, entre eles: não há como ressociabilizar o preso do sistema carcerário brasileiro, de um modo geral. Menos ainda o do alagoano. Afinal, como ressociabilizar alguém que não foi socializado?

Olhando a foto da parede, chego à conclusão de que a palavra sobrevive a qualquer ambiente – sem se importar com o quanto hostil ele é: dita, escrita, pronunciada baixinho para que ninguém escute. Mas e a ética do ser, a bondade humana, o sentimento de culpa e a vontade de melhorar sobreviveriam acima das circunstâncias? Até onde nós podemos ir se formos, desde muito pequenos, ‘ensinados’ a agir de acordo com nossos instintos mais primitivos? Fica a dúvida para posterior reflexão.


Foto: xadrez 1 da Delegacia de Roubos e Furtos
de Veículos e Cargas de Maceió.

Ambiente revirado pela revista dos agentes.



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:18 PM ... Comente!

Quarta-feira, Março 25, 2009 :::



O bom maconheiro

Quando se discute a legalização da maconha no Brasil, muitas pessoas acreditam que irá surgir um quadro simples, onde o temido traficante se tornará, de um dia para o outro, um comerciante de respeito, respaldado pelas leis vigentes. Há também o discurso de que países de primeiro mundo, como a Holanda, já descriminalizaram o uso da droga - e quem é que não tem um amigo maconheiro que sonha ir a Amsterdam?. A “novidade” é que o conto de fadas não deveria ser contado assim.

É claro que o raciocínio vai parecer (e é) careta, mas não posso acreditar que liberar a maconha, para o consumo, trará benefícios ao país. Meu primeiro argumento é que os traficantes não deixarão de ser traficantes porque um item, entre todos os “produtos” que oferecem, foi legalizado. Eles continuarão a vender a cocaína, o crack, o ecstasy e as demais drogas químicas que surgem a cada dia. O que eu quero dizer é: caso a defendida “liberação” da maconha não seja a tentativa de dar fim ao tráfico, a discussão se torna unilateral e pobre, já que parte do desejo de criar uma lei em privilégio de uma minoria e não da sociedade em geral.

Segundo ponto: o mito de Amsterdam. Comparar a legalização do consumo da maconha entre dois lugares cultural, econômica, política e socialmente diferentes já é um argumento fraco. E depois, a Holanda não é a “terra sem lei” que muitos imaginam; é salutar lembrar que lá a maconha não é ‘liberada’ e sim ‘tolerada’. Ou seja, existem lugares específicos para se comprar drogas naturais sem aditivos químicos (cogumelos e versões herbais de ecstasy servem de mais exemplo). A venda também é controlada por usuário nos coffee shops, estabelecimentos licenciados para a aquisição e consumo de pequenas quantidades de maconha. Isso equivale a dizer que sair fumando pelas ruas pode ser considerado uma afronta pelos guardas locais, portanto, é ato não-indicado, assim como portar “doses” excessivas de droga.

É bem verdade que todo malefício da maconha tem sido suavizado pelo surgimento de drogas tidas como mais nocivas ao organismo humano. Representantes da classe dos artistas, jornalistas, políticos etc. já se manifestam abertamente em favor da descriminalização e a patologia, que é a dependência química, vai cedendo lugar ao modismo ideológico do “legalize já”. Mas eu não posso deixar de imaginar que por trás de tanta vontade engajada exista alguém que não queira arriscar a vida subindo um morro (ou descendo uma grota), não deseja escancarar seu endereço em serviços delivery (o disk-droga) e prefere, enfim, pensar que futuro próspero é poder descer da altura de seu apartamento, comprar uma quantidade qualquer de maconha e pagar com cartão de crédito.

E não há quem me tire da cabeça que é esse o bom maconheiro que o Brasil não precisa.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 12:22 PM ... Comente!

Sábado, Março 21, 2009 :::



A juventude desacreditada

Com a propriedade de quem tem a juventude como argumento, garanto – mais do que admito: não é fácil ser jovem no Brasil. E quando digo isso não me refiro aos conflitos da idade, ao mercado de trabalho cada vez mais sufocado e nem as tolices características da geração dos vinte e poucos anos. Falo da dificuldade de compor a juventude, partindo do ponto de vista de quem olha para ela com descrédito e desdém. Explico melhor, claro.

Alguns dos textos que publiquei – nos meus blogs ou em outros meios – despertaram comentários elogiosos assim: “Nossa!como você escreve bem. Quando olhei a sua idade, quase não acreditei” (sic). E similares. Eu poderia levar as opiniões para o lado da lisonja apenas, mas sempre me chamou mais atenção o fato do descrédito na boa escrita, na crítica e no embasamento intelectual dos jovens de hoje. É como se reunir tais características fosse um feito para pessoas como eu, com 24 anos e uma vida pela frente.

Cabe ressaltar: dizer que os jovens têm uma vida pela frente não exclui a verdade de que eles já tiveram algo atrás. Mas as experiências da juventude parecem só ser contabilizadas quando se envelhece – o que chega a soar com ilogismo. Eu sou apenas um caso de jovem que saiu de casa cedo, está longe das pessoas que mais ama, recebe rasteiras diárias da vida etc. No caminho, tantas vezes tortuoso que tracei e traço, conheci muita gente que tem uma visão diferenciada da existência e manifesta isso através da escrita, da música, da atitude – que seja! E uma agradável constatação: quase todos são jovens. Alguns mais jovens do que eu e mais talentosos no que se propõem a fazer.

É uma pena que os meios de comunicação, as editoras, as gravadoras e os canais de propagação da imagem, em geral, dêem evidência a tantos exemplos sinuosos de jovens astros e anônimos: que se drogam, não sabem falar o português "correto", escrevem pior do que falam, não respeitam ideologias e sentimentos alheios, enfim. Por conta disso, jovens com boas intenções e invenções ainda são considerados a exceção. E a juventude – ah, a juventude – não deixou a (velha e empoeirada) cara de transviada.


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 11:46 PM ... Comente!

Segunda-feira, Março 16, 2009 :::



Reflexos e reflexões

Depois de cobrir um domingo (15) de eleição suplementar num municipiozinho do interior alagoano, voltei a uma velha questão já levantada por mim mesma – e por tantos outros: o que é democracia?

É claro que o dicionário ajuda, mesmo quando a realidade das coisas não coincide com a das palavras. Então, vamos aos saberes da língua, analisando a origem pelo grego: demos (povo) e kratia, de krátos (governo, poder, autoridade), como bem se aprende nas aulas de história. Numa tradução literal, democracia seria algo como “o povo no poder” – slogan já usado e abusado nas campanhas eleitorais e, sobretudo, nas eleitoreiras.

A definição é poeticamente aceitável, principalmente quando, em tribuna, políticos discursam que os eleitores são livres para escolher seus representantes. Mas a linha entre obediência e liberdade é tão tênue, não acham? É como se dissessem ao povo: a liberdade que vocês têm lhes obriga a votar. Contraditório, como quase tudo o que sai da mente e da boca dos homens.

A cidadezinha a que me referi no começo do texto é Porto Real do Colégio, distante 183 km de Maceió, e o diminutivo utilizado não tem nada de pejorativo, apenas faz referência aos cerca de 17 mil moradores do município. Por lá, ouvi muitos votantes dizerem em alto e bom som que votam apenas porque se sentem obrigados, vi eleitores apegados a promessas feitas no apagar das luzes de campanhas (cargos, benefícios próprios etc.) e pessoas defendendo nomes ao invés de ideologias. Também vi denúncias de compra de votos e distribuição de cestas-básicas; briga de mulheres, em plena avenida principal, por motivo político torpe. E nada – digo, nada mesmo – me pareceu democrático.

Qualquer pessoa que questiona o voto pode ser considerada leviana no Brasil, que tem um passado histórico inteiro para confirmar que ele é uma conquista das maiores. E nem faz tanto tempo assim. O que eu gostaria, de verdade, era de estar viva para ver a democracia real estabelecida quando os eleitores perceberem que existe uma opção viável entre o candidato que “não faz nada” e o que “rouba, mas faz”. Só que a morte chega, para todos, tão depressa...


Foto: policiais averiguam denúncia de compra de votos.
E se deseja saber o porquê das eleições suplementares
em Alagoas, clique aqui



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 9:51 PM ... Comente!

Quarta-feira, Março 11, 2009 :::

Quem tem olho é rei?

Deu na Gazetaweb: em Caraíbas, Agreste alagoano, cabrito nasceu com um olho apenas. Mas existem coisas mais estranhas acontecendo neste estado. Uma delas - mesmo sem o ineditismo da novidade - tem chamado, enfadonhamente, a atenção diária da população: a situação política.

E eu poderia falar dos governos estadual, municipal, escancarar baús fechados de representantes do povo de Alagoas em Brasília, enfim. Porém, prefiro ficar por aqui mesmo, atada ao que acontece no centro da capital, Maceió, a vista de todas e todos os que passam rumo ao comércio - para mais um dia de trabalho, compras ou pagamento de contas, como manda a cartilha do bom cidadão.

Mas assim como é fácil ser um bom alagoano, é difícil "engolir" maus alagoanos, sobretudo no poder. As pessoas nas ruas, mesmo as iletradas, entendem o que está acontecendo na Assembleia Legislativa - desde antes da Operação Taturana ter dado nome aos bois que desviaram quase R$ 300 milhões dos cofres públicos. Deputados afastados, volta e meia, anunciam um 'voltar por cima da carne seca', e mais, com todo o respaldo que a lei pode lhes garantir. Suplentes, encorajados pelo próprio temor, também garantem que ficam e - se não há nossa senhora que ajude - apelam para outra lei, que anula a primeira. Afinal, a exemplo do país, em Alagoas também existem as leis que "pegam" e as que não pegam - e entre elas, aquelas que jamais pegam as pessoas certas.

O que eu acho que deveria acontecer - e não acontece - é um movimento organizado vindo do povo, sem siglas para impor ideologias ou nomes registrados em cartórios. Gostaria de ver que pessoas sem envolvimento partidário estão colocando a cara na rua para pedir explicações claras, como a honestidade. Mas o povo se minimiza e acredita que só adquire poder de quatro em quatro anos. Tem dois olhos para ver e uma facilidade imensa de aceitar, mesmo aquilo o que discorda absolutamente.


Foto: Catedral de Maceió através da Assembleia Legislativa.
O crédito é do fotógrafo Marcelo Albuquerque e do seu olhar
diferenciado sobre as coisas. Ele tem trabalhos belíssimos que
podem ser vistos aqui.



::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 7:44 PM ... Comente!

Sexta-feira, Março 06, 2009 :::



Entre a cruz e a espada

Para falar a verdade, não gosto de religiões. Aliás, nunca gostei, mas me permiti o tempo do experimento para ter uma opinião consciente formada. Quando criança, fui adepta do catolicismo; na adolescência freqüentei igrejas protestantes e centros espíritas e não encontrei respostas para as minhas perguntas, basicamente, humanas.

Pois bem, ao me deparar com o mais recente embate igreja versus medicina, não pude deixar minha reflexão de lado. Trata-se do caso de uma criança pernambucana de nove anos que, estuprada, engravidou de gêmeos e foi submetida, na última quarta-feira (4), a um aborto. No Brasil, a prática é ilegal, porém casos em que a vítima sofreu violência sexual e corre risco de vida podem ser avaliados pela justiça e permitidos ou não. No caso da menina, a permissão foi concedida. Como se não bastasse a já trágica situação vivenciada por ela, seus familiares e todos os envolvidos no caso, o bispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe da garota e os médicos que participaram do processo. A criança foi poupada porque, segundo dom José, a igreja “é benévola, sobretudo, com os menores”.

Atenho-me a avaliar as contradições da decisão do bispo, nada mais. Ora, excomungar um grupo de pessoas que, obedecendo a lei dos homens, violou a lei divina é uma justificativa meio incompleta. Diga-se de passagem, o conhecido autor do estupro – padrasto da garota – não foi excomungado. Ou seja, o criminoso pode entrar em qualquer missa, receber a benção de um padre, tomar e beber o corpo e o sangue de Cristo (como eles dizem). Agora, que me perdoem os desígnios do Deus da igreja católica, se cada pessoa que fosse de encontro aos mandamentos cristãos tivesse de ser expulsa da religião, o catolicismo perderia muito mais fiéis do que perde diariamente. Mas existem interesses inclusos em toda conduta religiosa – assunto que vou deixar para outra ocasião.

O que mais me causa repulsa quando penso em religiosidade – vejam bem, religiosidade não é espiritualidade – é o fato dos questionamentos não existirem, dando lugar aos terríveis dogmas, uma espécie de conceito inquestionável, desses que dizem você é assim porque Deus quis e ponto final. Nem vírgula nem ponto-e-vírgula. Já eu, imperfeita que sou, simplesmente não acredito naquilo que não posso questionar.

_______
Acreditar... em que?

::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 10:51 AM ... Comente!

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009 :::

Blogando em Oficina

Na última terça-feira (17), em razão do calendário de recepção aos FERAS 2009, ministrei uma Oficina de Weblog para alunos novatos dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Com o gás característico de recém-chegados ao mundo acadêmico, os jovens – que, em média, tinham 17 anos – ouviram atentos todas as explicações que eu, no topo dos meus 24, tinha a lhes dar. Após uma breve explanação sobre o contexto histórico em que os blogs surgiram, a importância deles para a comunicação contemporânea e blablablá, os alunos puderam, ao final da Oficina, produzir sua própria página virtual, relacionada à 9ª Semana dos Estudantes de Comunicação, Secom 2009.

O resultado da “aula” pode ser acessado através do endereço: www.bastidoresdasecom.blogspot.com. Usamos um modelo de blog mais ligado às novas tendências: contendo três colunas. Mas já há layouts moderníssimos com quatro, cinco e até seis separações. Quem tiver interesse de mudar a cara do seu, indico o site BTemplates. Todos os modelos são compatíveis com o Blogspot.

É claro que eu não posso deixar de desejar boa sorte para todos os participantes da Oficina. Que eles tenham entrado na faculdade com o intuito de remover a poeira do jornalismo velho e caduco, adequando novas técnicas de informação e comunicação ao novo mundo que já temos e não é mais como antigamente. E isso não quer dizer acabar com jornais impressos, rádios, revistas, canais abertos, gibis e afins – entendam-me bem, por favor. Falo de um “fazer” diferente, e sei que muita gente compreende.

Ah, e o mais importante: que, chegando ao mercado de trabalho, eles encontrem pessoas dispostas a praticar menos o velho jornalismo em dias tão atuais. Que Pierre Lévy os proteja! Amém.

________
Meu muito obrigada ao Renato Medeiros, meu monitor na Oficina, que bloga aqui, e ao jornalista João Paulo, uma presença querida, que bloga aqui e aqui também. Além da organização do evento, claro, que bloga aqui. (Risos)


::: escrito por ISOLDA HERCULANO às 7:34 PM ... Comente!



Powered by Blogger

Criar pagina